Cultura

O segredo no contrato das NewJeans: voz clonada por IA sem data para acabar

Integrantes do NewJeans em silhueta com ondas sonoras digitais representando clonagem de voz por IA
Contrato do NewJeans permite uso perpétuo de vozes sintéticas pelas integrantes, assinado quando eram menores de idade.

O contrato das integrantes do NewJeans autoriza a gravadora a licenciar versões sintéticas de suas vozes por tempo indeterminado. Elas tinham entre 14 e 17 anos quando assinaram. A cláusula transforma a identidade vocal em ativo corporativo perpétuo, escapando do teto de sete anos que rege contratos artísticos na Coreia do Sul desde 2009.

O grupo não lança música desde junho de 2024, após disputa judicial perdida para a ADOR, subsidiária da HYBE. Mas a reportagem do New York Times revela que o silêncio nos palcos não impede a gravadora de explorar as vozes digitalmente. A HYBE investiu US$ 32 milhões na Supertone, startup de síntese vocal que já lançou singles em seis idiomas usando a voz de um único cantor.

Quando a voz vira propriedade sem validade

O modelo padrão da indústria coreana limita a exclusividade a sete anos. A proteção surgiu para acabar com contratos draconianos, mas a “voz sintética” ficou fora da conta. A cláusula do NewJeans permite performances que nunca existiram, em idiomas que não falam, sem precisar do aval delas no estúdio.

O precedente tecnológico veio em 2023 com o projeto MIDNATT, alter ego do cantor Lee Hyun. A faixa “Masquerade” saiu simultaneamente em coreano, inglês, japonês, chinês, espanhol e vietnamita. A pronúncia nativa foi ajustada por IA a partir de dados de falantes reais. O CEO da Supertone resumiu: basta uma amostra para recriar qualquer canção naquele timbre.

O laboratório asiático e o avanço dos clones

O K-pop funciona como laboratório global dessa transição. A SM Entertainment lançou o aespa com “gêmeos digitais” (os “ae”) habitando um metaverso. O grupo virtual PLAVE, com humanos por trás de avatares, vence programas de TV e lota shows.

O fenômeno extrapola vidas ativas:

  • China: Vídeos de Coco Lee (falecida 2023) e Qiao Renliang (morto 2016) viralizaram; famílias exigiram remoção.
  • Japão: A NHK exibiu “AI Misora Hibari” cantando música inédita 30 anos após a morte da estrela; público dividido entre emoção e revolta.
  • Não autorizado: Cover de “Hype Boy” na voz de Bruno Mars passou de 1 milhão de views no YouTube. Ele nunca gravou.

Leis correm atrás, mas contratos correm mais

A Coreia protege valor comercial de nome, imagem e voz via lei de concorrência desleal (2022). Nos EUA, o NO FAKES Act avançou no Senado limitando licenças de réplica digital a 10 anos (5 para menores, extintas aos 18). O Tennessee tem lei própria.

No Brasil, o Art. 11 do Código Civil diz que direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis. A jurisprudência, porém, flexibiliza: Enunciados 4 e 139 das Jornadas de Direito Civil admitem limitações voluntárias se não forem permanentes, gerais ou abusivas. Uma licença indefinida para performances inexistentes tende a falhar nesses testes.

O caso Volkswagen/Elis Regina (2023) abriu o debate nacional. Tramita no Senado projeto de reforma do Código Civil exigindo consentimento prévio, expresso e informado para imagens geradas por IA, além de sinalização obrigatória e autorização de herdeiros para falecidos.

O dilema do consentimento adolescente

O contrato do NewJeans vence em 2029. Até lá, a gravadora detém o “direito de ditto” — a cópia exata — sobre vozes que ainda estão em formação. A pergunta central não é tecnológica, mas contratual: a manifestação de vontade de uma menor pode cobrir, de uma só vez, todas as performances futuras de uma identidade sonora que ela mesma desconhece?

Enquanto o Judiciário e o Legislativo definem fronteiras, a indústria já opera na lacuna. Para investidores e gestores de carreira, o sinal é claro: cláusulas de “reconstrução digital” deixaram de ser ficção para virar item de due diligence. O próximo hit do setor pode não ter cantor no estúdio — apenas o dono dos direitos da voz.