A abertura de capital da Anthropic, uma das startups de IA mais valiosas do mundo, corre risco real de não acontecer ainda em novembro. Investidores institucionais estão pressionando por uma redução drástica na avaliação de US$ 1,5 trilhão — cerca de R$ 8,2 trilhões — considerada o teto das expectativas atuais. A dúvida central agora é se a empresa aceita cortar o preço ou adia o sonho do IPO.
O impasse expõe uma fratura no mercado: a confiança cega na inteligência artificial está sendo testada pela realidade dos juros altos e da geopolítica. O que acontecer nos próximos dias pode ditar o ritmo de todo o setor tecnológico nos meses seguintes.
O muro de US$ 1,5 trilhão
A rodada de apresentações a investidores (roadshow) deveria ter começado na semana de 9 de novembro, com precificação definida para os dias seguintes. Fontes próximas às negociações confirmam à Reuters que o cronograma derrapou. A exigência por um valuation mais “atrativo” não é birra: reflete a maior onda de vendas de ações de tecnologia em 12 meses.
Há poucos meses, o mercado privado chegava a cogitar US$ 2 trilhões (R$ 10,96 trilhões) para a Anthropic. A queda para US$ 1,5 trilhão já era um ajuste; a resistência atual sinaliza que o desconto precisará ser maior. A empresa carrega um histórico de prejuízos trimestrais e compromissos bilionários com parceiros de infraestrutura para treinar seus modelos.
- Valuation alvo inicial (mercado privado): até US$ 2 trilhões
- Valuation discutido para IPO: US$ 1,5 trilhão (R$ 8,22 tri)
- Tamanho estimado da oferta: até US$ 100 bilhões (R$ 548 bi)
- Dado crítico ausente no S-1: receita de outubro
Por que a receita de outubro virou “santo graal”
O formulário S-1 atualizado, documento obrigatório para o IPO nos EUA, não trouxe os números de faturamento do mês passado. Investidores tratam esse dado como decisivo: ele mostrará se a desaceleração de crescimento observada nos trimestres anteriores foi revertida ou se virou tendência. Sem essa prova de aceleração, fechar a conta a US$ 1,5 trilhão torna-se quase impossível.
Mas o problema não é apenas contábil. A instabilidade macroeconômica criou um efeito dominó. A eleição de meio de mandato nos EUA, realizada no dia 3, injetou incerteza fiscal. Dois dias depois, o setor de tecnologia liderou as quedas em Wall Street, arrastando ativos ligados à IA para o vermelho.
O contágio já bateu na porta dos data centers
A pressão não para nos papéis da Anthropic. A Microsoft teria intensificado a supervisão sobre projetos de centros de dados de parceiros como Nebius, IREN e Nscale, segundo a Bloomberg. No último mês, Nebius, IREN e CoreWeave viram seus valores de mercado caírem pela metade.
O medo de calote subiu: os CDS (credit default swaps) de CoreWeave e SpaceX atingiram recordes. Para se ter a dimensão, mais de 50 ações de tecnologia do índice S&P 1500 recuaram 10% ou mais. O setor tech entregou desempenho 10,7% pior que o S&P 500 — a maior defasagem desde maio de 2002.
“Estamos vendo uma greve dos compradores em tecnologia”, resume Keith Lerner, CIO da Truist Advisory Services. “O elástico está ficando esticado.”
O fator político que ninguém precificou
Além do juro e do balanço, surge um obstáculo físico: a energia. Em vários estados americanos, iniciativas eleitorais foram aprovadas para limitar a expansão de data centers. A oposição política à infraestrutura pesada da IA ganhou força real, encarecendo e atrasando a expansão necessária para justificar valuations trilionários.
Se a Anthropic adiar a oferta, o sinal para o mercado será claro: nem os “queridinhos” da IA conseguem furar o bloqueio atual. Isso pressionaria Microsoft, Nvidia e todo o ecossistema que sustenta os índices acionários americanos.
O que observar daqui para frente
Mesmo céticos, analistas como Rick Meckler (Cherry Lane Investments) apostam que a Anthropic e a SpaceX acabarão abrindo capital, beneficiadas pela demanda do varejo. “Não é como se essas empresas não fossem fazer parte do futuro”, diz ele. “As avaliações subiram muito no privado; veremos retração.”
Três gatilhos definem o desfecho imediato: a divulgação da receita de outubro, a disposição dos underwriters em bancar o risco a um valuation menor e a estabilidade do Nasdaq nas próximas sessões. Se o mercado seguir volátil, a janela de novembro fecha e a Anthropic entra em 2025 ainda privada — carregando a conta dos data centers sem o oxigênio do capital público.
