Tecnologia

O fotógrafo que viu a F1 virar negócio global: 657 GPs e a ameaça da IA

Mark Sutton, fotógrafo veterano de F1, com câmera teleobjetiva no paddock durante Grande Prêmio
Mark Sutton registra a velocidade da F1 há quatro décadas, testemunhando a evolução do esporte ao conteúdo global.

Mark Sutton carrega no currículo 657 Grandes Prêmios de Fórmula 1, mas a estatística que mais importa para quem vive de imagem não está no número de corridas. Está na velocidade com que uma foto sai da pista para o mundo: hoje, segundos; há quatro décadas, horas. A trajetória do fotógrafo de 61 anos espelha a transformação de um esporte artesanal em uma máquina de conteúdo global — e expõe o dilema que agora bate à porta de qualquer profissional criativo: até onde a automação substitui o olhar humano?

O erro que virou cartão de visita

Tudo começou com uma falha técnica em 1983. Estudante em Manchester, Sutton fotografava sua primeira corrida — uma prova de F3 em Oulton Park — com uma câmera sem avanço automático de filme. Ayrton Senna e Martin Brundle se tocaram na sua frente. O fotógrafo conseguiu apenas dois quadros: os carros lado a lado e, no clique seguinte, o carro de Senna já sobre o do rival. O instante exato da colisão sumiu enquanto ele movia a alavanca manualmente.

Ainda assim, as imagens rodaram o planeta. A lição ficou: na fotografia de alto nível, a tecnologia dita o que é possível registrar. Quem não acompanha, perde o momento — e o faturamento.

Do laboratório ao satélite: a cadeia de valor acelerou

Durante décadas, o fluxo era físico e lento. Fotografar, revelar, digitalizar, enviar. A virada veio em camadas:

  • Anos 1990: câmeras digitais profissionais surgem, mas com resolução inferior ao filme. Profissionais carregavam os dois equipamentos.
  • Anos 2000: transmissão por modem e redes móveis encurta o caminho até as redações.
  • Atualidade: terminais Starlink distribuídos pela Getty Images nos circuitos permitem upload direto da câmera para editores em qualquer continente.

O gargalo mudou de lugar. Hoje, o inimigo não é a lentidão do filme, mas a saturação das redes móveis: 100 mil espectadores gerando tráfego de vídeo simultâneo. A solução corporativa — infraestrutura satelital dedicada — virou vantagem competitiva para quem vende imagem em tempo real.

O produto não é mais só a corrida

Sutton aponta uma virada silenciosa no modelo de negócio da cobertura. As imagens de maior valor comercial em um fim de semana de GP nem sempre envolvem carros. Uma foto exclusiva de Kim Kardashian e Lewis Hamilton no GP dos EUA, em Austin, liderou o faturamento da agência naquele evento.

O público mudou. A série Drive to Survive, da Netflix, trouxe mulheres e jovens para as arquibancadas. Celebridades viraram atração fixa no paddock. Para o fotógrafo, isso significa diversificar o portfólio: reações de torcedores, bastidores, lifestyle. A corrida virou pano de fundo de um espetáculo de entretenimento global.

A linha vermelha da inteligência artificial

Getty Images proíbe imagens geradas por IA em seu acervo editorial. Ajustes de cor, nitidez e remoção de elementos indesejados são permitidos — desde que não alterem a realidade do fato. Sutton defende a fronteira: “No jornalismo, preservar a autenticidade do registro é central.”

Mas ele admite que a tecnologia avança rápido. Ferramentas já limpam fundos, corrigem enquadramento e criam composições “perfeitas” em segundos. A pergunta que ele deixa no ar — e que vale para qualquer setor criativo — não é se a IA vai substituir o fotógrafo, mas se o mercado vai aceitar pagar por “imperfeição humana” quando a perfeição sintética custar fração do preço.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o próximo capítulo dessa indústria:

  • Políticas de plataformas: se redes sociais e bancos de imagem passarem a rotular ou penalizar conteúdo sintético, o valor da imagem “real” sobe.
  • Automação na pista: robôs fotográficos já são testados em eventos esportivos. A Getty experimenta câmeras remotas fixas; o próximo passo é mobilidade autônoma.
  • Direitos de imagem e IA: processos sobre uso de fotos reais para treinar modelos generativos podem redefinir quem lucra com o arquivo histórico.

Sutton, que já trocou filme por sensor e modem por satélite, resume a aposta de sobrevivência: “Enquanto o cliente valorizar o instante que só um humano soube antecipar, há mercado. No dia em que o algoritmo antecipar melhor, é hora de sair.” A lição vale para qualquer negócio baseado em expertise: a tecnologia não mata a profissão — ela move a linha de frente.