Cultura

O segredo dos 102 anos: o que uma vida nos trilhos ensina sobre legado

Cláudio Raszl, 102 anos, comemora aniversário temático ferroviário com quatro gerações em Sorocaba
Mecânico aposentado Cláudio Raszl celebra 102 anos com festa ferroviária reunindo quatro gerações da família em Sorocaba.

Aos 102 anos, o mecânico aposentado Cláudio Guilherme Raszl comemorou mais um aniversário com uma festa temática ferroviária que reuniu quatro gerações em Sorocaba (SP). A celebração, batizada de “O Trenzinho do Caipira” em homenagem a Villa-Lobos, não foi apenas um marco de longevidade: expôs, em detalhes, a engenharia por trás de uma trajetória construída sobre turnos de 14 horas, decisões financeiras rigorosas e um plano de sucessão familiar executado com precisão cirúrgica.

A festa que revela uma estratégia de vida

O evento de 27 de outubro de 2026 ocorreu em um buffet, escolha deliberada do aniversariante para garantir chopp à vontade aos convidados — um gosto que credita ao avô austríaco. A mudança em relação aos anos anteriores, quando a família organizava recepções caseiras, sinaliza uma gestão de energia e recursos típica de quem otimizou processos a vida inteira.

Entre os presentes, a estrutura familiar impressiona: quatro filhos, dez netos e sete bisnetos conectados por um grupo de mensagens que agenda cafés semanais. Esse “ritmo de manutenção” dos laços funciona como o lubrificante que evita o desgaste das engrenagens domésticas ao longo das décadas.

Dos 20 anos à efetivação: o custo de oportunidade da guerra

A carreira na Estrada de Ferro Sorocabana começou em 1944, mas a efetivação só veio em 1945, coincidindo com o fim da Segunda Guerra Mundial. Raszl lembra o dia em que uma locomotiva estava pronta para testes quando o armistício silenciou as fábricas e fez soar sirenes e sinos em comemoração.

Antes dos trilhos, o currículo já somava passagens por estamparia, fábrica de óleo, metalúrgica e oficina de carroças. Essa rotação inicial não foi acaso: construiu a base técnica multidisciplinar que depois permitiu resolver problemas complexos na “seção especializada” da ferrovia.

A equação das 14 horas: horas extras como investimento em capital humano

A rotina na Sorocabana durou quase 30 anos. A jornada começava às 6h com hora extra de manutenção, seguia o expediente normal e terminava por volta das 20h, incluindo sábados e domingos. O motivo não era ambição corporativa, mas matemática doméstica:

  • Quatro filhos em idade escolar simultânea.
  • Esposa que tentou trabalhar fora, mas a logística não fechou.
  • Premissa: “Uma coisa que ninguém rouba é o diploma, a melhor herança que podíamos deixar”.

Cada hora extra vendida à companhia era convertida diretamente em mensalidade escolar. Foi um private equity familiar aplicado em ativos intangíveis de alto retorno.

Transição de carreira e o segundo ato na Aço Paulista

A aposentadoria na ferrovia não representou o fim da geração de valor. Raszl emendou 18 anos na Aço Paulista, somando mais de quatro décadas de contribuição previdenciária e renda ativa. “Deu para acertar a vida”, resume ele, sem romantizar o sacrifício, mas validando a eficácia do modelo.

Mesmo após o segundo desligamento formal, a oficina caseira permaneceu aberta. A mentalidade de asset management — conservar, reparar, estender a vida útil — migrou do pátio industrial para a garagem de casa.

O cravo seco: gestão de risco emocional e memória de longo prazo

Em julho de 2026, a perda da esposa Ruth, após quase 80 anos de união, testou a resiliência do sistema. No funeral, um ritual simbólico funcionou como hedge contra o luto: cada descendente jogou um cravo na sepultura. Raszl guardou um para secar ao lado da flor original do namoro, preservada há oito décadas.

O gesto materializa a estratégia de manter ativos de valor sentimental líquido, acessíveis nos momentos de volatilidade emocional. A neta Ana Beatriz relata que o objeto segue intacto, testemunha física da durabilidade do contrato firmado na juventude.

O balanço final e a projeção para o próximo exercício

Ao auditar a própria história para a reportagem, o centenário entrega o parecer conclusivo: “Valeu a pena. Eu e minha patroa trabalhamos bastante”. Não há vitimismo, apenas a constatação de que o fluxo de caixa da vida fechou no azul.

O planejamento sucessório, contudo, não para. Questionado sobre 2027, ele avisa: “Se tiver dinheiro, a gente faz qualquer coisa. Sempre tem uma novidade”. Aos 102 anos, o mecânico segue capitalizando experiências, prevendo manutenções e recusando-se a paralisar a composição.

O que observar daqui para frente

A trajetória de Raszl oferece três variáveis de monitoramento para quem gere carreiras, empresas ou patrimônios familiares:

  • Diversificação precoce: experiências variadas antes da especialização criam robustez técnica.
  • Alocação de excedentes: o direcionamento de renda extra para educação (ativo imobilizado humano) superou consumo imediato.
  • Continuidade operacional: a transição entre ciclos (Sorocabana → Aço Paulista → Oficina caseira) evitou a obsolescência precoce.

O “Trenzinho do Caipira” de Villa-Lobos acelera e freia, simula paradas e arrancadas. A lição que fica nos trilhos de Sorocaba é que a locomotiva não para por idade; para apenas quando o maquinista decide não mais alimentar a fornalha. Raszl, aos 102, ainda joga lenha no fogo.