Uma força-tarefa municipal identificou 53 crianças e adolescentes exercendo atividades laborais nos dois maiores cemitérios de Rio Branco durante o Dia de Finados. O dado expõe uma face oculta da economia informal que insiste em surgir nas datas comemorativas de maior fluxo.
A operação, conduzida pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (Sasdh), mirou os cemitérios São João Batista e Jardim da Saudade. A concentração de casos ocorreu no segundo, onde menores limpavam jazigos e comercializavam velas e flores para visitantes.
O que a fiscalização encontrou na prática
As equipes não apenas contabilizaram os casos. Cada abordagem gerou uma ficha de identificação com dados do menor e do responsável legal. A orientação imediata foi o encaminhamento para casa e a explicação sobre direitos fundamentais, como a frequência escolar e o acesso a benefícios sociais.
Segundo o diretor de Assistência Social, Ivan Ferreira, o trabalho era motivado pela busca de renda imediata e informal. A secretaria não divulgou, até o fechamento da ação, o recorte por faixa etária ou a distribuição exata entre os dois locais.
Por que isso afeta indicadores sociais e econômicos regionais
A persistência do trabalho infantil em datas sazonais não é um problema isolado de assistência social. Ela sinaliza fragilidades na rede de proteção que impactam diretamente a formação de capital humano futuro e a percepção de risco social para investidores que operam na Região Norte.
Os números oficiais mais recentes, baseados em levantamentos do IBGE citados pela própria pasta, dimensionam o desafio:
- Brasil: 1,5 milhão de crianças e adolescentes (5 a 17 anos) em trabalho infantil em 2025 — 4% da faixa etária.
- Piores formas: 525 mil em atividades perigosas, insalubres ou prejudiciais ao desenvolvimento.
- Região Norte: 249 mil casos, representando 6,3% da população nessa idade.
- Acre: Cerca de 5,6 mil menores nessa condição, segundo dados municipais.
O ciclo da vulnerabilidade e a resposta da rede
A estratégia da prefeitura prevê o acompanhamento contínuo das famílias identificadas. O encaminhamento padrão direciona os responsáveis aos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) para inclusão em programas de transferência de renda, cursos de qualificação e serviços de proteção.
Caso se configure violação de direitos mais grave — como exposição a riscos físicos ou coação —, o caso migra para o Centro de Referência Especializado (Creas). A abordagem busca romper o ciclo: renda imediata hoje, exclusão escolar e profissionalização comprometida amanhã.
O que observar daqui para frente
A secretaria já antecipou que ações similares serão intensificadas em outros grandes eventos e feriados prolongados, quando a circulação de pessoas eleva a demanda por serviços informais. Para gestores públicos e iniciativa privada, o monitoramento desses indicadores serve como termômetro da eficácia das políticas de base e da estabilidade do ambiente de negócios local. A redução sustentável desses números dependerá menos de operações pontuais e mais da capilaridade efetiva da rede socioassistencial nos territórios de maior vulnerabilidade.
