Economia

Dólar a R$ 5,45 e El Niño: a conta que vai pesar no seu bolso em 2026

Gráfico mostra dólar a R$ 5,45 e ícone El Niño impactando preços no supermercado
Dólar a R$ 5,45 e El Niño pressionam inflação e encarecem cesta básica em 2026.

O dólar fechou a sexta-feira a R$ 5,447 — maior nível do ano — e a combinação com o El Niño já força economistas a rasgar as projeções de inflação para os próximos dois anos. A alta de 9,2% na semana pós-eleição não é apenas ruído de mercado: ela contamina preços de combustíveis, alimentos e bens duráveis de forma quase imediata.

Mas o câmbio é só metade do problema. A outra metade já está na gôndola do supermercado.

O que o câmbio alto faz com a inflação real

Quase tudo na economia brasileira tem algum grau de indexação ao dólar. Combustíveis, trigo, milho, soja, fertilizantes, máquinas, componentes eletrônicos. Quando a moeda americana salta de R$ 5 para R$ 5,45 em dias, o repasse começa na importação e chega ao consumidor em semanas.

Fábio Romão, da 4intelligence, resume: “A gama é gigantesca”. Ele elevou a projeção do IPCA 2026 de 5,18% para 5,31% e a de 2027 de 4,23% para 5%. Ambos os anos agora ficam acima do teto da meta do Banco Central, que é 4,5%.

Sergio Vale, da MB Associados, vê quadro semelhante: 5,2% para 2026 e 4,5% para 2027. Rafael Cardoso, do Daycoval, projeta 5% e 4,2%, mas admite que a estimativa do próximo ano pode subir.

El Niño já está na conta do feijão

Antes mesmo da escalada do dólar, a comida já pressionava. O IPCA-15 de outubro mostrou alta de 1,01% na alimentação no domicílio — maior variação para o mês em cinco anos. Tomate disparou 24,54%, cebola 13,63%, batata 10,96%, arroz 5,8%.

Parte disso é o El Niño. Chuvas excessivas no Sul e Sudeste reduziram a oferta justamente quando a colheita deveria abastecer o mercado. O fenômeno altera temperaturas e regime de chuvas, dificultando o planejamento agrícola.

O IPCA-15 geral desacelerou para 0,32% graças a passagens aéreas e energia elétrica. Mas o núcleo de alimentos não dá trégua.

O triângulo de risco que ninguém controla sozinho

Três vetores atuam juntos e se retroalimentam:

  • Câmbio: pressionado por dúvidas fiscais pós-eleição
  • Clima: El Niño reduz safras e eleva custo da produção
  • Demanda: medidas de estímulo pré-eleição (reajuste do Bolsa Família 17 dias antes do 1º turno) injetam dinheiro na ponta

Solange Srour, do UBS GWM, alerta: sem ajuste fiscal crível, o dólar permanece alto e o Banco Central pode ser forçado a voltar a subir a Selic em 2027. Hoje, o Focus projeta juros a 13,25% no fim de 2024 e 11,75% no fim de 2025.

O que vem a seguir: sinais para monitorar

O dólar pode se acomodar se o governo sinalizar compromisso fiscal claro nos próximos dias. A montagem da equipe econômica e as primeiras medidas de contenção de despesa serão lidas como termômetro.

Do lado da oferta, a intensidade do El Niño nos próximos meses definirá se a pressão de alimentos arrefece ou se espalha para outras culturas. Petróleo e política de preços da Petrobras completam a equação dos combustíveis.

O único alívio estrutural projetado é a desaceleração da atividade econômica. Mas, em cenário de desconfiança fiscal, o efeito desinflacionário do PIB fraco costuma ser neutralizado pela desancoragem das expectativas.

Para quem precifica contratos, planeja investimentos ou gere estoques: o cenário base para 2026 já roda acima de 5% de IPCA. A meta oficial é 3%. A diferença não é detalhe — é custo real.