A paralisação da única fábrica de papel de Témiscaming, no Quebec, deixou 360 trabalhadores em casa e derrubou o valor dos imóveis da noite para o dia. A tarifa de 50% imposta pelos EUA ao produto local travou a engrenagem que move a cidade há mais de um século. Agora, moradores correm contra o relógio para evitar que o equipamento congele no inverno e a cidade vire poeira.
O fechamento não é apenas uma estatística de desemprego; é a ruptura de um ecossistema inteiro. Sem a renda da RYAM, dona americana da unidade, supermercados, clínicas e transportadoras já sentem o baque. O prefeito fala em “guerra com pistolas de água” e o sindicato tenta repetir o feito de 1973: recomprar a fábrica.
O motor que parou de girar
A fábrica produz papelão para embalagens de congelados e bilhetes de loteria instantânea. Cerca de 75% da produção cruzava a fronteira rumo ao sul. Em agosto, após o colapso das negociações comerciais, Washington taxou cerca de C$ 28 bilhões em bens canadenses — madeira, celulose e papel entraram na lista com alíquota máxima.
A resposta de Ottawa veio no mesmo peso: tarifas “dólar por dólar”. Mas, na prática, a conta chegou primeiro em Témiscaming. A RYAM anunciou “paralisação por razões econômicas” por tempo indeterminado no começo de outubro. O programa federal de alívio paga apenas parte dos salários, e a ansiedade tomou conta das ruas.
- 360 funcionários diretos parados;
- 75% da produção dependia do mercado americano;
- 50% de tarifa sobre o papel exportado;
- C$ 400 milhões federais prometidos ao setor florestal (ainda em implementação).
O efeito dominó nos serviços essenciais
Nadine Suley, moradora e trabalhadora, resume o clima: “Não é apenas um emprego. É a nossa casa”. Ela brinca que a carne de alce da caça vai virar item de sobrevivência no freezer. Placas de “Vende-se” brotam nos jardins. O temor real é a saída de médicos, enfermeiros e comerciantes — sem a fábrica, a base tributária evapora.
Um empreiteiro local já demitiu 13 pessoas. Serrarias e transportadoras de madeira, que dependiam do fluxo da fábrica, operam no vermelho. Ronnie Raymond, de família histórica na cidade, avisa: “Se a fábrica fechar, a cidade vira cidade fantasma. Não vai sobrar nada”.
O precedente de 1973 e a aposta no “raio duas vezes”
Não é a primeira vez que o abismo se abre. Em 1973, o dono americano ameaçou fechar. Trabalhadores e gestores se uniram, cortaram salários em 10% e compraram a planta, criando a Tembec. Frank Dottori, engenheiro na época e depois CEO, lembra que foi “educadamente colocado para fora” do gabinete do premier de Quebec na primeira tentativa.
Hoje, a coalizão local quer repetir a dose: recomprar a unidade da RYAM (dona desde 2017). Stéphane Lefebvre, líder sindical de terceira geração na fábrica, diz que “o raio pode cair duas vezes”, mas exige capital federal e provincial. “Estamos no jogo 7. Vamos jogar até o apito final”, afirma.
Onde Ottawa errou o alvo?
Enquanto Témiscaming sangra, o governo Carney anunciou quase C$ 9 bilhões para aço e automóveis em Ontário. A ministra Mélanie Joly ameaçou sanções à Stelco (siderúrgica em Hamilton) para salvar 500 empregos. Para o deputado Sébastien Lemire (Bloc Québécois), o setor florestal de Quebec ficou em segundo plano.
O porta-voz de Joly cita os C$ 400 milhões para áreas rurais e um programa de capital de giro para empresas reduzirem a dependência dos EUA. Diz que o governo “trabalha ativamente com todas as partes”. Na prática, moradores não veem a cor do dinheiro nem a fumaça da chaminé.
O inverno não espera negociação
O relógio mais perigoso não é o político. É o climático. Com a fábrica parada, tubulações e caldeiras correm risco de congelar nas temperaturas negativas do inverno quebequense. Danos estruturais tornariam a reabertura — sob nova gestão ou não — exponencialmente mais cara, talvez impossível.
Na semana passada, a senadora republicana Susan Collins (Maine) articulou a suspensão de *algumas* tarifas canadenses. Os produtos de Témiscaming ficaram de fora. A esperança dos trabalhadores agora repousa nas eleições de meio de mandato nos EUA, que podem forçar Trump a ceder. Mas, como diz Suley, “aceitaremos qualquer ajuda que pudermos receber”. O apito final soa quando a neve chegar.
O que observar nas próximas semanas
- Liberação efetiva dos C$ 400 milhões federais para o setor florestal;
- Movimento concreto da coalizão local para estruturar oferta de recompra da RYAM;
- Decisão de Ottawa sobre tarifas retaliárias em papelão americano (pedido do prefeito);
- Previsão meteorológica: geadas antecipadas aceleram danos irreversíveis ao parque industrial.
