Economia

FMI libera US$ 900 mi, mas alerta: estabilidade argentina não cria empregos

Julie Kozack do FMI anuncia liberação de US$ 900 milhões para Argentina sob governo Milei
FMI aprova US$ 900 mi para Argentina, mas alerta que estabilidade econômica não gera empregos.

O Fundo Monetário Internacional aprovou a liberação de US$ 900 milhões para a Argentina, mas a porta-voz Julie Kozack fez um alerta direto: a estabilidade conquistada até aqui não está gerando postos de trabalho. O diagnóstico expõe o nó que o governo Milei ainda precisa desatar.

O desembolso faz parte do Acordo de Facilidades Estendidas de US$ 20 bilhões, vigente há um ano. A missão técnica encerrou a revisão com sinal verde, mas a coletiva desta quinta-feira (29) deixou claro que o “dever de casa” macroeconômico não basta.

O paradoxo da estabilização sem emprego

Os números macroeconômicos impressionam os técnicos do Fundo. Inflação contida, déficit público zerado, reservas em reconstrução. O ajuste fiscal drástico — marca da gestão ultraliberal — recebeu elogios repetidos. Porém, a União Industrial Argentina (UIA) contabiliza cerca de 90 mil vagas extintas desde agosto de 2023.

Kozack foi taxativa: “houve um entendimento compartilhado sobre a necessidade de ampliar os ganhos de estabilização alcançados até agora, em direção a um crescimento mais sólido e à criação de empregos”. A tradução prática: o remédio funcionou, mas o paciente segue fraco.

O que o FMI recomenda para virar a chave

Três frentes foram destacadas como prioritárias para transformar estabilidade em expansão real:

  • Flexibilização trabalhista: regras que reduzam o custo e o risco de contratar no setor privado;
  • Desbloqueio de infraestrutura: mais de US$ 70 bilhões (R$ 376 bi) em concessões já aprovadas precisam sair do papel;
  • Estímulo à demanda interna: investimento privado e consumo das famílias precisam substituir o ajuste como motor da economia.

As reformas de mercado e trabalhistas aprovadas no início do ano formam a base legal. Falta a execução efetiva — e o tempo corre contra a paciência social.

Risco-país e a blindagem das reservas

Questionada sobre eventual escalada do risco soberano, a porta-voz foi cirúrgica: o melhor conselho é manter o programa nos trilhos, “em particular no que diz respeito à acumulação de reservas internacionais líquidas”. O recado vale para o mercado e para a Casa Rosada: desvios na meta de reservas reacendem prêmios de risco.

O próximo desembolso deve ser referendado pelo conselho diretor do FMI no início de dezembro. Até lá, os indicadores de atividade e emprego serão lidos com lupa.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis dirão se a Argentina consegue sair da armadilha da estabilização estéril: a velocidade de implementação das concessões de infraestrutura, a resposta do setor privado às novas regras trabalhistas e a trajetória das reservas líquidas do BCRA. O dinheiro do Fundo continua fluindo — mas a contrapartida agora tem nome e sobrenome: geração de emprego.