O próximo presidente terá de quebrar promessas de campanha para evitar uma crise contratada. A conta do desequilíbrio fiscal já chegou a 83% do PIB e o relógio não para. Quem pagar a conta — e como — define o futuro dos seus investimentos.
Não há saída técnica que sobreviva sem respaldo político do Planalto. Ministros competentes e Banco Central independente não bastam quando a primeira turbulência teste a vontade de quem tem a caneta.
O tamanho do buraco que ninguém quer mostrar
O gasto primário federal saltou de 17,8% do PIB (2021-22) para 19,6% em 2023. Parece pouco? Em dinheiro, são centenas de bilhões a mais por ano. A dívida bruta, que fechou 2022 em 72% do PIB, caminha para 83% em 2026 — trajetória que exigiria ajuste de 4% do PIB para estabilizar. Algo politicamente impossível no curto prazo.
O núcleo do problema não é discricionário. Está nas despesas obrigatórias que crescem no automático e engolem o orçamento. Cada real a mais nesse bloco é um real a menos para saúde, educação e investimento.
Medidas recentes aprovadas no Congresso foram na direção oposta. Em vez de abrir espaço, tornaram a correção mais difícil. O prêmio de risco não cai com boas intenções — cai com choque de credibilidade sustentado por reformas que gerem economia permanente.
Por que o Banco Central não resolve sozinho
Independência do BC protege a política monetária. Não cria espaço fiscal. Juros altos lá fora encarecem o financiamento doméstico e reduzem a margem para erros. Sem reformas, juros longos sobem, custo de rolagem explode e a Selic trava. Política monetária responsável não substitui a fiscal — elas andam juntas ou caem juntas.
Contingenciamento não é ajuste. Aumento de receita pontual não é ajuste. Ajuste crível desacelera permanentemente a trajetória da despesa. Ponto.
A reforma que ninguém tem coragem de propor
- Rever indexações e vinculações que engessam o Orçamento
- Recalibrar benefícios sociais para focalizar quem realmente precisa
- Reavaliar subsídios e benefícios tributários que privilegiam poucos
- Nova reforma da Previdência: subsídios do MEI, regra do salário mínimo, idade mínima
O acesso ampliado ao regime previdenciário sem contrapartida de contribuição equivalente pressiona um sistema já frágil. A conta chega — e chega para todos.
O inimigo invisível: insegurança jurídica
Há um desafio inseparável da economia: a perda de confiança nas instituições. Insegurança jurídica inibe investimento, eleva custo de capital e destrói previsibilidade. Reforma do Judiciário — transparência, eficiência, segurança jurídica — é tão urgente quanto a fiscal. Respeitando a separação dos Poderes, mas sem aceitar o status quo.
Bons nomes e discursos de responsabilidade não bastam. O presidente terá de gastar capital político, arbitrar conflitos e assumir o custo das escolhas. Liderar não se terceiriza. O adulto na sala precisa ser quem tem o voto.
O que observar daqui para frente
Nos primeiros 180 dias do novo governo, três sinais dirão se o ajuste vem ou se a crise vem primeiro: (1) envio de PEC com reforma administrativa e previdenciária estrutural; (2) veto a pautas-bomba no Congresso, mesmo aliadas; (3) sinalização clara de que subsídios tributários entram na mira. Sem isso, o mercado precifica o inevitável — e a conta, no final, sempre vai para o mesmo lugar: seu bolso.
