Economia

O ajuste de 4% do PIB que ninguém tem coragem de anunciar

Gráfico mostra dívida bruta brasileira atingindo 83% do PIB em 2026 com necessidade de ajuste fiscal de 4%
Projeção da dívida pública brasileira e o tamanho do ajuste fiscal necessário para estabilização

A dívida bruta caminha para 83% do PIB em 2026 e estabilizá-la exige um corte estrutural de cerca de 4% do PIB — valor considerado inviável no curto prazo. A conta chegou, mas o cheque ainda não foi assinado.

O gasto primário federal saltou de 17,8% para 19,6% do PIB em poucos anos. O descompasso não é conjuntural: concentra-se em despesas obrigatórias que comprimem investimentos e travam o tripé macroeconômico. Sem enfrentar essa raiz, o prêmio de risco segue pressionado e a credibilidade, erodida.

Por que a equipe econômica sozinha não resolve

Ministro da Fazenda com discurso de ajuste, Banco Central independente e articulação no Congresso são peças necessárias, mas insuficientes. Se o presidente não arbitrar conflitos internos e sustentar as medidas impopulares na primeira dificuldade, a sinalização de responsabilidade se dissolve.

A independência monetária protege a inflação, não cria espaço fiscal. Juros globais elevados reduzem a margem para erros domésticos: sem reforma do lado da despesa, juros longos sobem, encarecem a rolagem e travam a queda da Selic. Política monetária responsável não substitui a fiscal.

O que torna o ajuste “inviável” na prática

Contingenciamentos e aumento de receita são paliativos. Um choque de confiança real exige redução permanente da trajetória do gasto. Isso passa por rever:

  • Indexações e vinculações orçamentárias que engessam o Orçamento;
  • Regras de reajuste do salário mínimo que pressionam a Previdência;
  • Subsídios tributários e benefícios sociais mal focalizados;
  • O regime do MEI, cuja expansão sem contrapartida atuarial aumentou o déficit previdenciário.

Uma nova reforma da Previdência — incluindo idade mínima e regras de transição mais duras — deixa de ser opção e vira condição para a sustentabilidade do sistema.

O inimigo invisível: insegurança jurídica

Mesmo com contas arrumadas, o capital não volta se o contrato não vale. A insegurança jurídica inibe investimento, eleva o custo de capital e torna a previsibilidade uma miragem. A reforma do Judiciário — com foco em transparência, eficiência e respeito à separação de Poderes — é urgência de mesma grandeza que a fiscal.

O que observar daqui para frente

O termômetro não está no discurso de posse, nem na nomeação da equipe. Observe se o presidente gasta capital político para aprovar medidas que contrariaram sua base eleitoral. Acompanhe a tramitação de uma PEC previdenciária ampla e a disposição para enfrentar subsídios setoriais. Se o “adulto na sala” continuar sendo terceirizado, a crise deixa de ser risco e vira cronograma.