A Polsec Indústria e Comércio de Equipamentos de Segurança Ltda. assinou contrato de R$ 39,8 milhões para instalar tecnologia de bloqueio de sinais em unidades prisionais de Mato Grosso. O extrato saiu no Diário Oficial desta quarta-feira (28) e cobre celulares, rádios, redes Wi-Fi e até drones.
O valor chama atenção, mas a pergunta que fica é: por que investimentos anteriores não resolveram o problema? A resposta passa por falhas técnicas, manutenção precária e a evolução constante dos equipamentos ilegais.
O que o contrato prevê além da instalação
Não se trata apenas de comprar aparelhos. O escopo inclui elaboração de projetos técnicos, fornecimento, instalação, ativação, monitoramento contínuo, suporte, manutenção preventiva, atualizações de hardware e software, treinamento de equipes e toda a infraestrutura necessária para o funcionamento do sistema.
Essa abrangência sugere que o governo quer evitar o erro comum de instalar equipamentos e abandoná-los sem suporte técnico — o que historicamente transformou bloqueadores em “enfeites caros” em poucos meses.
O tamanho do desafio em números
- Mais de 2 mil celulares apreendidos apenas no 1º semestre de 2024 nas prisões de MT
- Valor do contrato: R$ 39,8 milhões
- Tecnologia alvo: celulares, rádios, Wi-Fi e drones
- Publicação oficial: 28 de agosto de 2024
A quantidade de aparelhos recolhidos revela a falha dos sistemas atuais. Cada celular dentro da cela representa comunicação com o crime organizado fora dela — encomendas de execuções, tráfico, lavagem de dinheiro.
Drones: a nova fronteira do contrabando
O edital menciona explicitamente o bloqueio de drones. Não é detalhe: aeronaves não tripuladas tornaram-se vetor preferencial para lançar drogas, celulares e até armas sobre muros e grades. Sistemas convencionais de bloqueio de sinal de celular não impedem drones autônomos ou controlados por radiofrequência criptografada.
A solução exigida envolve radares de curto alcance, inibidores de frequência de controle e GPS, e integração com câmeras de monitoramento perimetral. Tecnologia que, até pouco tempo, era restrita a instalações militares.
O que ainda não se sabe — e por que isso importa
O extrato não detalha quais unidades serão atendidas, quantos bloqueadores serão instalados, prazo para início dos serviços nem cronograma de implantação. Essas lacunas definem se o investimento será eficaz ou apenas simbólico.
Presídios de grande porte como a Penitenciária Central do Estado (PCE) ou a Penitenciária Major PM Eldo de Sá Corrêa (Mata Grande) demandam projetos distintos de unidades menores. A topografia, a densidade populacional e a proximidade de áreas urbanas alteram completamente a engenharia de radiofrequência necessária.
O elo fraco: gente, não máquina
Na mesma semana, um policial penal foi preso por facilitar a entrada de drogas e celulares em unidade prisional do estado. O caso ilustra o ponto crítico: nenhuma tecnologia bloqueia corrupção interna. Se servidores abrem portas, o melhor sistema de radiofrequência vira obstáculo contornável.
Especialistas em segurança prisional alertam que o bloqueio de sinais deve vir acompanhado de controle de acesso rigoroso, revista inteligente, inteligência artificial em câmeras e, sobretudo, política de integridade e rotatividade de servidores em áreas sensíveis.
O que observar nos próximos meses
Três indicadores dirão se o contrato entrega resultado: (1) publicação do cronograma físico-financeiro com metas trimestrais; (2) relatórios técnicos de aferição de campo — medições de intensidade de sinal dentro e fora dos perímetros; (3) queda real nas apreensões de celulares e nas tentativas de entrega por drone, cruzadas com dados de inteligência sobre comunicação de facções.
Se o governo tornar esses dados públicos periodicamente, a sociedade poderá fiscalizar. Caso contrário, R$ 39,8 milhões viram apenas mais uma linha no orçamento — enquanto o celular toca dentro da cela.
