Economia

O segredo dos fundadores da Anthropic: US$ 14 bi cada e o controle que não acaba

Sete fundadores da Anthropic, ex-funcionários da OpenAI, em frente ao logotipo da empresa
Os sete fundadores da Anthropic detêm US$ 14 bi cada mantendo controle total da empresa.

Sete ex-funcionários da OpenAI fundaram a Anthropic em janeiro de 2021. Cinco anos depois, o pedido de IPO revelou que cada um detém uma fortuna estimada entre US$ 13,7 bilhões e US$ 14,4 bilhões. Mas o número mais impressionante não está no saldo bancário — está na estrutura de poder que permite a eles doarem quase tudo e continuarem no comando.

O formulário S-1 protocolado na SEC na segunda-feira expõe uma engenharia societária rara no Vale do Silício. A avaliação de referência, baseada na rodada Série H de primavera a US$ 58,90 por ação (pós-desdobramento), coloca a fatia de cada cofundador na casa dos 1,4% da empresa. Se a estreia na bolsa atingir os US$ 2 trilhões projetados por analistas de Wall Street, o patrimônio individual salta para cerca de US$ 29 bilhões.

A conta por trás dos bilhões

O prospecto detalha a propriedade acionária com data-base de 30 de setembro de 2026. Cada um dos sete fundadores possui aproximadamente 240 milhões de ações ordinárias Classe A, somando opções de compra e unidades restritas (RSUs) com vencimento próximo.

  • Dario Amodei (CEO): 245 milhões de ações (4,6 milhões já alocados em fundos de doação, mantendo apenas o voto).
  • Daniela Amodei (Presidente): Inclui opções e RSUs detidas pelo cônjuge.
  • Demais cofundadores: Tom Brown, Jared Kaplan, Sam McCandlish, Chris Olah e Jack Clark completam o grupo com participações equivalentes.

Juntos, eles somam 1,69 bilhão de ações — cerca de 10% do capital total. A estimativa de 16,9 bilhões de ações em circulação decorre da informação de que o novo Anthropic Public Benefit Fund deterá 846,8 milhões de papéis, equivalentes a 5% da base totalmente diluída.

O segredo do controle: Classe F e a LLC dos fundadores

Aqui reside a genialidade — e o risco — da estrutura. Uma única ação Classe F, detida por uma LLC controlada pelos sete, garante 50,1% dos direitos de voto. Essa ação não tem valor econômico, apenas poder político.

O acordo prevê que um fundador permanece na LLC enquanto mantiver pelo menos 2% das ações Classe A que possuía no IPO. Na prática, eles podem doar ou vender 98% de sua participação econômica e preservar o controle total da companhia.

O próprio documento admite o conflito: à medida que as doações avançam, o alinhamento entre os interesses dos controladores e dos demais acionistas minoritários tende a se enfraquecer.

A promessa filantrópica de 80% (revogável)

Todos os sete signatários se comprometeram publicamente a destinar 80% de suas participações pessoais a causas filantrópicas. O prospecto, no entanto, classifica a promessa como “expressão voluntária e revogável de intenção”, sem força jurídica vinculante. Não há cronograma, beneficiários definidos ou valores fixados.

Essa flexibilidade permite que a narrativa de “IA para o bem” conviva com a concentração de poder absoluto nas mãos do grupo original.

Os verdadeiros “donos” econômicos: Amazon e Google

Curiosamente, os dois maiores investidores não aparecem na tabela de acionistas vendedores. Amazon e Google deterão ações Classe N — sem direito a voto — após a oferta.

  • Amazon: Limitada a 12% de participação via conversão de notas.
  • Google: Teto de 14,99% no acordo mais recente.

Somadas, as fatias das big techs superam a participação econômica combinada dos sete fundadores. Elas financiam a queima de caixa — a empresa reportou prejuízo de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre — mas abrem mão da governança.

O fundo que vale mais que três fundadores juntos

O Anthropic Public Benefit Fund, criado para perseguir a missão de benefício público da empresa, nasce gigante: 846,8 milhões de ações avaliadas em aproximadamente US$ 49,9 bilhões ao preço da Série H. Um de seus primeiros gestores será o cofundador Jack Clark, fechando o ciclo entre missão, dinheiro e controle.

O que observar daqui para frente

O período de restrição de venda (lockup) de 180 dias pós-IPO pode ser dispensado pelos coordenadores Goldman Sachs e Morgan Stanley. A remuneração dos fundadores permanece modesta frente ao patrimônio — Dario Amodei recebeu US$ 17,96 milhões em 2025, majoritariamente em ações — sinalizando que a aposta real está no evento de liquidez.

Para investidores, a equação é clara: compram-se ações de uma empresa com tecnologia de ponta e receita crescente, mas aceita-se uma governança onde o poder de voto é inegociável e o alinhamento econômico dos controladores diminuirá sistematicamente via doações. O preço do IPO dirá se o mercado precifica esse risco — ou se a euforia com IA ignora a estrutura por completo.