O agronegócio brasileiro entra no quarto mandato de Lula cercado por uma tempestade perfeita: juros altos, commodities em queda e o fantasma do El Niño pairando sobre a safra 2026-27. A conta pode chegar para o bolso de toda a sociedade.
Não é a primeira vez que o setor enfrenta esse roteiro. Em 2006, o então ministro Roberto Rodrigues classificou o momento como “uma das piores crises das últimas décadas”. Câmbio desfavorável, custos explodindo, preços das commodities em queda e secas no Sul dizimavam a renda do produtor. A resposta veio com seguro rural, fundo contra catástrofes, biodiesel e reconstrução da Embrapa.
Por que a história se repete — e pode ser pior agora
Os governos mudam, mas os gargalos estruturais permanecem. Sem um programa de renda no campo que divida a conta entre Estado e setor privado, a agricultura segue refém de variáveis que não controla: clima, geopolítica e ciclos de preço globais.
O cenário atual traz ingredientes novos e perigosos:
- Selic elevada: encarece o crédito, incha dívidas e suprime margens — não é problema só do agro.
- Commodities em baixa: recomposição de estoques mundiais derrubou cotações justamente quando o produtor travou custos altos.
- El Niño na janela crítica: a safra 2026-27, em plantio, tem meta oficial de 367 milhões de toneladas de grãos. O fenômeno climático pode transformar recorde em prejuízo.
O efeito cascata que ninguém calculou
Se o clima frustra a colheita, o golpe é duplo: o produtor amarga perdas com custos já contratados e a inflação de alimentos acelera, pesando no orçamento das famílias urbanas. O governo herda, assim, um problema político-econômico de difícil gestão.
Mas o efeito mais relevante aparece no front externo.
Geopolítica: a conta dos fertilizantes e do diesel
Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio alongam-se além das previsões iniciais. Resultado: fertilizantes e diesel — insumos vitais — seguem pressionados. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome; qualquer ruído logístico ou sanção reverbera direto na planilha de custo da lavoura.
O alívio inesperado nas relações comerciais
Há, contudo, um contraponto. A vitória de Lula removeu do radar o risco de alinhamento automático com uma eventual gestão Trump, que poderia forçar retaliações contra a China — destino de quase 30% das exportações do agro brasileiro. O ruído diplomático diminuiu, mas não desapareceu.
A União Europeia prepara novas barreiras ambientais e de rastreabilidade para 2025. O governo terá de negociar equivalências e prazos sem abrir mão de mercados que absorvem soja, milho e carnes.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do setor nos próximos 18 meses: a intensidade do El Niño entre dezembro e março, a trajetória da Selic nas reuniões do Copom e a capacidade do Ministério da Agricultura de desenhar um seguro rural com aporte privado efetivo — não apenas subvenção pública. Quem acompanha o agro como ativo ou como insumo para outros negócios deve monitorar, semanalmente, os relatórios de safra da Conab e os prêmios de risco no mercado de opções sobre commodities. É ali que o mercado precifica, antes de todos, o tamanho da conta que virá.
