A base evangélica que hoje aparece em fotos ao lado de Flávio Bolsonaro passou meses em silêncio deliberado. A mobilização religiosa só começou de fato em setembro, quando vazamentos envolvendo o ministro Alexandre de Moraes mudaram o tabuleiro.
Até então, líderes das maiores denominações do país evitavam subir no palanque do senador. O que parecia unidade nas redes sociais era, nos bastidores, uma resistência calculada.
O cálculo que precedeu a bênção
Em abril, durante encontro na Assembleia de Deus Belém, o pastor José Wellington orou pelo parlamentar. No mesmo evento, o deputado e pastor Marco Feliciano cobrou reciprocidade da família Bolsonaro — uma crítica velada à relação de mão única que marcava o período.
Silas Malafaia, uma das vozes mais influentes do segmento, chegou a declarar publicamente que “candidatura não é negócio de família” e defendeu o nome de Tarcísio de Freitas. A preferência por Tarcísio não era ideológica: era estratégica. Pesquisas internas indicavam que ele tinha mais chances de vencer Lula em 2026.
Os pesos contra o senador
Três fatores concretos frearam o entusiasmo dos pastores:
- Mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, banco público do Distrito Federal
- Imóveis adquiridos com pagamento em espécie
- Recursos do empresário Paulo Marinho (Vorcaro) destinados a filme sobre Jair Bolsonaro
A mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro completou o quadro de desconfiança. Em conversas reservadas, lideranças comparavam a família Bolsonaro à casa do sacerdote Eli, figura bíblica que não conteve os filhos corruptos.
O gatilho de setembro
A virada ocorreu quando o ministro André Mendonça tornou públicas mensagens entre Alexandre de Moraes e assessores, além do contrato da esposa do ministro com empresa do banqueiro. O episódio reacendeu a base bolsonarista e forçou os pastores a saírem da neutralidade.
Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”. No centenário da Assembleia de Deus Madureira, no Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira pediu que o público repetisse “irmão vota em irmão”.
Pragmatismo sobre convicção
Um interlocutor próximo ao meio evangélico definiu Flávio como “novo crente” — termo que ecoa “novo rico”: alguém que usa a fé como vitrine política sem domínio teológico, chegado à religião pela Comunidade das Nações, igreja vista como próxima do poder.
Quando o apoio finalmente veio, foi por pragmatismo: Flávio era o nome da direita com voto bolsonarista garantido e chance real de vitória. Somaram-se a pressão dos fiéis e o interesse em manter acesso a um eventual presidente da República.
O que observar daqui para frente
Antes da arrancada final, pastores admitiam entre si que já projetavam 2030 com Tarcísio. A vitória de Eduardo Paes no Rio, com apoio do PT, deixou lições: o deputado Otoni de Paula, conservador nos costumes e ex-bolsonarista, não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas manteve capital político. Petistas o veem com desconfiança, porém reconhecem sua utilidade para dialogar com grandes denominações — ponte que o PT e seus evangélicos não conseguiram ou não quiseram construir.
O xadrez religioso segue em movimento. A aliança de 2024 foi tática. A de 2026 dependerá de quem entregar o que prometeu.
