Um dos mais influentes colunistas do país acaba de publicar um diagnóstico brutal sobre o cenário político pós-eleição: independentemente do vencedor, a degradação institucional já está contratada. Para quem gere capital ou toma decisões estratégicas, o texto funciona como um alerta de risco sistêmico — não pelo que promete, mas pelo que revela sobre a percepção da elite intelectual.
A coluna, assinada por Luiz Felipe Pondé e publicada no UOL, descreve a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como um “surto” coletivo onde a única variável é o tipo de dano ao arcabouço democrático. Não há projeção de melhora, apenas a escolha entre dois vetores de deterioração.
Dois vetores, mesma trajetória
O argumento central separa as ameaças por natureza, não por intensidade. De um lado, a tradição bolsonarista de flertar com rupturas institucionais explícitas — tentativas de golpe “cafonas”, nas palavras do autor, em 2022 e 2023. Do outro, um projeto petista descrito como “mais sofisticado”: a colonização silenciosa do Estado, da cultura e da educação ao longo de quase duas décadas.
Para o investidor, a distinção importa. Rupturas bruscas geram volatilidade imediata e reprecificação de ativos. Captura institucional lenta corroe a previsibilidade regulatória, afasta capital de longo prazo e eleva o prêmio de risco de forma difusa, difícil de mensurar até que seja tarde.
O Judiciário como variável oculta
O trecho mais relevante para análise de risco país não trata do Executivo. Pondé afirma que, vença quem vencer, o Supremo Tribunal Federal continuará “perdido”, com ministros atuando “por seus políticos de estimação” e “ao sabor do gosto ideológico ou de interesses pecuniários”.
Se a premissa procede — e a percepção de parcialidade judicial já aparece em relatórios de agências de rating e fundos de pensão —, o Brasil caminha para um cenário onde a última barreira contratual deixa de ser confiável. Contratos de longo prazo, concessões, PPPs e arcabouços regulatórios passam a carregar um prêmio de incerteza jurídica que não se resolve com hedge cambial.
O que os números não dizem, mas o comportamento revela
Não há dados novos na coluna. Não há projeções de PIB, taxa Selic ou dívida/PIB. O valor analítico está na leitura de comportamento: a descrição de uma elite política que “perdeu a vergonha na cara e passou a comer de boca aberta” reflete uma quebra de social contract que antecede qualquer deterioração fiscal.
Histórico recente apoia a tese: desde 2014, o Brasil acumula oito anos de crescimento médio abaixo de 1,5% ao ano, com investimento (FBKF) estagnado em torno de 16% do PIB — patamar incompatível com expansão sustentada. A polarização não é causa única, mas funciona como freio permanente a reformas estruturais.
Cenários para o próximo ciclo
- Cenário base: manutenção do empate técnico entre blocos, governabilidade via coalizões fisiológicas, avanço incremental de pautas microeconômicas (arcabouço fiscal, reforma tributária em implementação), mas paralisia em temas estruturais (previdência complementar, abertura comercial, autonomia do BC consolidada).
- Cenário de estresse: judicialização excessiva de políticas econômicas, incerteza sobre mandato do BC, pressão por expansão fiscal não financiada, fuga de capital estrangeiro de renda fixa longa.
- Cenário de ruptura (baixa probabilidade, alto impacto): questionamento de resultado eleitoral, intervenção militar ou tentativa de perpetuação no poder via mudança constitucional — eventos que reprecificariam o risco Brasil em dias.
O que observar daqui para frente
Três indicadores antecipados valem mais que qualquer discurso de campanha:
- Composição do STF: próximas nomeações definirão o viés da Corte por uma década. Acompanhe sabatinas no Senado e votações em plenário.
- Execução orçamentária do primeiro ano: se o vencedor furar o teto/arcabouço nos primeiros seis meses, o sinal para o mercado é claro.
- Reforma tributária na prática: a transição do IPI/PIS/COFINS/ICMS/ISS para CBS/IBS/IS testará a capacidade de implementação do Estado — e a disposição do setor privado em confiar no novo modelo.
A coluna de Pondé não oferece saídas. Oferece um espelho. Para quem aloca capital, o exercício útil não é concordar ou discordar do tom, mas incorporar a probabilidade de que a instabilidade política deixe de ser ciclotrônica e passe a ser estrutural. O prêmio de risco brasileiro já embute parte disso. A pergunta é: embute o suficiente?
