O Brasil amanhece dividido ao meio após uma eleição decidida por margens mínimas, e 52,7% dos eleitores admitem já ter cortado relações por divergências políticas. O número expõe uma fratura que vai além das urnas: atinge mesas de jantar, grupos de WhatsApp e conselhos de administração.
Mas essa sensação de “fim do mundo” não é inédita. Em 24 de agosto de 410, Roma caiu após 800 anos invicta. O choque foi tão profundo que São Jerônimo decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A polarização da época mirava os cristãos como culpados. A busca por bodes expiatórios, então, já era o reflexo padrão do medo.
O que um bispo do século V ensina sobre liderança em crise
Santo Agostinho, diante dos escombros, recusou o derrotismo. Seu “Sermão sobre a Queda de Roma” começa validando a dor — o choro é legítimo. Em seguida, desloca o foco: a cidade não são os muros, são as pessoas. “Roma enim quid est, nisi Romani?” — o que é Roma, senão os romanos?
A pergunta ecoa no Brasil de 2024. Substitua “Roma” por “Brasil” e a resposta define o próximo ciclo: instituições frágeis resistem quando há tecido social forte. Agostinho propunha que toda sociedade carrega duas cidades invisíveis: uma movida pelo amor próprio, outra pelo bem comum. Quedas de impérios apenas revelam qual delas estava no comando.
Dois caminhos para o dia seguinte
As pesquisas mostram que a rejeição mútua é simétrica. Cada metade enxerga a outra como “pior”. Diante do espelho, surgem duas rotas práticas:
- Radicalizar o isolamento: usar a derrota para ampliar muros, transformar adversários em inimigos permanentes e paralisar decisões conjuntas.
- Reconstruir pontes: tratar o “outro” como futuro concidadão — expressão do próprio Agostinho — e buscar o denominador comum para governabilidade.
Agostinho da Silva, pensador português radicado na Bahia, resumiu a alternativa em plena Segunda Guerra: buscar em cada pessoa “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.
O custo do ódio para o ambiente de negócios
Para investidores e gestores, a polarização não é apenas tema de rodas de conversa. Ela mensura-se em:
- Dificuldade de aprovação de reformas estruturais no Congresso;
- Volatilidade cambial e de juros alimentada por ruído político;
- Fuga de talentos e capital humano para ambientes menos tóxicos;
- Paralisia de projetos que dependem de consenso regulatório.
O paralelo com Jó, citado por Agostinho, cabe no balanço patrimonial: perder tudo e recusar-se a amaldiçoar o contexto é postura de quem preserva opcionalidade. Quem aposta no caos costuma ficar sem caixa quando a maré vira.
O que observar daqui para frente
A frase que atravessou séculos — “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos” — deixa de ser conselho espiritual e vira métrica de gestão. O próximo trimestre dirá se a classe dirigente brasileira escolheu muros ou estradas. Acompanhe a tramitação das pautas econômicas no Congresso: a velocidade de votação de matérias técnicas, sem apelo ideológico, será o termômetro real de qual “cidade invisível” prevaleceu.
Enquanto o ruído ocupar a manchete, o sinal está nas votações técnicas. Quem lê apenas o barulho perde a janela de alocação.
