O presidente reeleito chamou de “babaquice” a busca por superávit primário. Agora, a matemática que ele tentou esconder bate à porta: o Brasil gasta mais de R$ 1 trilhão por ano apenas com juros da dívida. O valor equivale ao que é pago a 42 milhões de aposentados e pensionistas do INSS.
Essa não é uma projeção pessimista. É o retrato das contas públicas em 2026, último ano do mandato atual. O déficit projetado ronda R$ 80,9 bilhões — uma virada radical em relação ao superávit de R$ 18,6 bilhões que o Orçamento previa.
O veneno fiscal por trás dos bons números
O país chega às urnas com renda em alta e desemprego em mínimos históricos. Mas o motor desse desempenho queima combustível caro: gastos extras estimados em mais de R$ 100 bilhões nos próximos anos, com R$ 40 bilhões já contratados para 2025.
Na reta final da campanha, o governo turbinou o Bolsa Família em 15%, expandiu o Pé-de-Meia, manteve subsídios a combustíveis e ampliou benefícios sociais. O mercado contabilizou cada centavo.
- R$ 40 bilhões em despesas adicionais já para o ano que vem
- R$ 80,9 bilhões de déficit primário projetado para 2026
- R$ 11,1 trilhões de dívida bruta prevista (82,9% do PIB)
Como a conta saiu do controle
A deterioração não começou agora. No segundo mandato de Lula (2007-2010), o superávit primário médio caiu de 3,4% para 1,5% do PIB — mascarado por contabilidade criativa. O descontrole daquele ciclo culminou na recessão e no impeachment de Dilma Rousseff.
Corrigida pela inflação, a despesa total do governo central subiu 128,5% entre dezembro de 2008 e agosto de 2026. A primária avançou 91,7%. Mas o verdadeiro estrangulamento vem dos juros: deram um salto de 320%, saindo de R$ 260 bilhões para ultrapassar R$ 1 trilhão ao ano.
O Orçamento virou camisa de força
Hoje, 92% das despesas são obrigatórias. Previdência, assistência, saúde e educação engolem mais de 80% dos recursos. O espaço para investimentos encolhe a cada ano: os juros já respondem por 29,6% de todo o gasto público (contra 16,1% em 2008).
Para estabilizar a dívida, seria necessário um ajuste de 2,5% do PIB — cerca de R$ 320 bilhões — garantindo superávits primários de pelo menos 2% do PIB. A campanha, porém, preferiu a demagogia.
O dilema que vem pela frente
Na noite da eleição, os mercados futuros em Nova York anteciparam o tamanho do desafio: o principal índice de ações brasileiras despencou 20% e o real se desvalorizou mais de 10%. A reação mostra o custo da desconfiança.
Lula venceu com margem de cerca de 4 milhões de votos. Tem legitimidade para agir. O anúncio de um ministro da Fazenda comprometido com o reequilíbrio das contas pode comprar tempo — mas não resolve a equação estrutural.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis vão ditar o ritmo da crise ou da recuperação: a velocidade de alta da dívida bruta sobre o PIB, a disposição política para mexer em despesas obrigatórias e a credibilidade do novo comando econômico perante investidores. Se o ajuste não vier por iniciativa própria, o mercado o imporá — com juros mais altos, recessão e inflação. A conta, no fim, sempre chega.
