Economia

Marcas de luxo perdem 250 bi: o segredo por trás da queda na China

Gráfico de queda acentuada com logos de grifes de luxo europeias e bandeira da China ao fundo
As seis maiores grifes europeias perderam 251 bi de euros em valor de mercado em 2024.

As seis maiores grifes europeias de capital aberto viram seu valor de mercado encolher 251 bilhões de euros apenas neste ano. A conta chega a R$ 1,4 trilhão e expõe uma fragilidade que vai muito além de uma simples correção de bolsa.

O gatilho principal tem nome e sobrenome: consumidor chinês. Mas a história não para por aí.

O motor que parou de girar

Por mais de uma década, a China foi o combustível do setor. Hoje, o varejo chinês cresce menos de 0,5% ao mês em média — uma freada brusca frente ao ano anterior. Crise imobiliária prolongada e bolsa em queda tiraram poder de compra e confiança dos clientes que sustentavam margens recordes.

Luca Solca, analista da Bernstein, resume: a recuperação esperada entrou em “compasso de espera”, gerando revisão de resultados, pressão nas ações e muita reflexão estratégica.

Os números que assustam os acionistas

  • LVMH: -131,6 bi € (R$ 742 bi) em valor de mercado
  • Hermès: -93,3 bi € (R$ 526 bi)
  • Kering (Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta): queda acelerada para 15-20% nas vendas a chineses no 3º tri

A divisão de moda e couro da LVMH viu receitas de chineses caírem “na faixa intermediária dos 10%”. A CFO Cécile Cabanis admite: “Esperamos que diminua. Não sabemos ao certo quando.”

Até a fortaleza Hermès tremeu

Conhecida pela resiliência, a maison registrou recuo de 2% na divisão de prêt-à-porter e acessórios. O CFO Eric du Halgouët cita dois vilões: queda de 19% no índice CSI 300 (perda de US$ 2 tri) nos últimos quatro meses e nova taxação de 20% sobre dividendos e juros de trusts no exterior.

Nick Anderson, do Berenberg, saiu da atualização da Hermès com “mais perguntas do que respostas”, temendo exposição excessiva à China e dependência de consumidores aspiracionais maior que o previsto.

O contraponto: joias e ícones ainda brilham

Nem tudo é queda. Bolsas Birkin e modelos topo de linha da Hermès subiram 10,8%. Joias da Tiffany (LVMH) e Boucheron (Kering) entregaram crescimento de dois dígitos no trimestre. O ultra-rico segue comprando; o aspirante a rico, não.

EUA: o segundo pilar também racha

Dados de cartão do Citi mostram quedas de pelo menos 4% nos gastos de luxo em julho, agosto e setembro. Bolsas em baixa e gasolina cara pesam. A Hermès diz que seu cliente americano mantém o ritmo; a Kering, mais exposta à classe média aspiracional, alerta para pressão pré-eleições de novembro.

O que observar daqui para frente

Com sinais fracos nos dois maiores mercados, a Bernstein aponta que a maioria das casas “não tem nada melhor a fazer” senão ganhar eficiência enquanto espera o retorno da demanda. Para o investidor e executivo, os gatilhos a monitorar são: reação do varejo chinês a estímulos fiscais, trajetória do CSI 300 e confiança do consumidor local, comportamento do gasto discricionário nos EUA pós-eleição e capacidade das marcas de proteger margens sem diluir exclusividade. Quem ler esses indicadores antes do mercado pode antecipar a próxima rotação de capital no setor.