O Brasil vive uma expansão silenciosa e irreversível de doenças infecciosas impulsionada pelo clima. O que era barreira natural virou rota de transmissão — e os números assustam.
Em 2024, o Rio Grande do Sul registrou quase 210 mil casos de dengue e 281 mortes. A Bahia, com 3 milhões de habitantes a mais, ficou em 163 mil infecções. A inversão expõe a nova realidade: o frio não protege mais.
O mapa que dobra de tamanho a cada década
Um levantamento da Fiocruz revela que as microrregiões com níveis epidêmicos de dengue saltaram de 110 para 292 entre 2006 e 2024. Metade do território nacional (54%) vive hoje sob risco constante. As demais áreas oscilam entre incidência média, baixa ou risco incerto.
O motor dessa expansão tem nome: anomalias térmicas. Temperaturas muito acima ou abaixo do habitual por períodos prolongados criam o ambiente perfeito para o Aedes aegypti. Segundo os pesquisadores, uma vez estabelecidos vírus e vetor, o retorno a cenário de transmissão zero é improvável.
O mosquito que acelera no calor
O infectologista Celso Granato detalha o mecanismo: calor extremo força o mosquito a bater as asas mais rápido, gastando mais energia. Resultado? Ele pica mais vezes para se alimentar e transmite mais patógenos.
Há outro detalhe crítico: os ovos têm casca resistente e podem dormitar por anos na natureza. Quando calor e umidade aparecem, eclodem — e já podem nascer infectados, graças à transmissão vertical da fêmea para a prole.
- 210 mil casos de dengue no RS em 2024 (recorde histórico)
- 292 microrregiões em nível epidêmico (era 110 em 2006)
- 54% do território sob risco constante
Oropouche: da Amazônia para 23 estados em um ano
Até 2023, a febre do Oropouche circulava quase só na Amazônia. No ano seguinte, explodiu: mais de 12 mil infecções confirmadas em 23 estados e no Distrito Federal. A ciência ainda investiga a conexão climática, mas a hipótese forte aponta para mudança nos padrões de chuva e temperatura somada à degradação ambiental.
O alerta aumenta com a previsão de El Niño. O fenômeno favorece eventos extremos — secas e enchentes — que funcionam como gatilhos para surtos em cadeia.
O perigo que vem da lama e da fumaça
No Rio Grande do Sul, após as enchentes de 2024, a leptospirose disparou. A bactéria viaja na urina de ratos e se espalha pela água contaminada. O mesmo volume hídrico mistura esgoto à água de consumo, abrindo portas para hepatite A e infecções gastrointestinais graves.
Do outro extremo, as secas e queimadas empurram a fauna silvestre para áreas urbanas. Roedores infectados por hantavírus invadem residências. Desde 2016, o Brasil confirmou 530 casos com 212 óbitos — letalidade de 40%. Bolívia e Paraguai já vivenciaram o mesmo padrão pós-incêndios.
Fungos: a barreira dos 37°C está caindo
O corpo humano mantém 37°C — temperatura que impede 95% dos fungos ambientais de crescer. Mas o aquecimento global está selecionando cepas adaptadas a esse limiar. A professora Sarah Gonçalves Tavares (UFES) chama de “engrenagens” o combo: calor, radiação UV e estresse ecológico.
O exemplo mais letal é Candida auris. Identificado nos anos 1990 na Ásia, chegou ao Brasil em 2020 (Bahia). Hoje soma 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram. Quando atinge a corrente sanguínea, a letalidade salta para 82%.
Outro recém-chegado: Trichophyton indotineae, fungo de pele detectado em 2022. Já nasceu resistente a antifúngicos — provavelmente por exposição ambiental a fungicidas agrícolas.
O ciclo que se retroalimenta
Eventos climáticos extremos fragilizam lavouras. Agricultores aplicam mais fungicidas. A pressão seletiva acelera o surgimento de cepas resistentes. Ao mesmo tempo, fungos como Aspergillus — antes restritos a zonas quentes e úmidas — avançam para novas fronteiras à medida que temperatura e umidade se rearranjam.
O que observar daqui para frente
Três frentes exigem monitoramento contínuo: a marcha da dengue para o Cone Sul e países do Hemisfério Norte (EUA, França e Itália já registram transmissão autóctone); a expansão do Oropouche para fora da Amazônia; e a emergência de fungos termotolerantes em ambientes hospitalares. Cada surto deixa lições — e custos — para sistemas de saúde, produtividade e seguros. O clima não avisa quando muda a regra do jogo; quem antecipa os vetores ganha tempo.
