Uma carteira de títulos públicos indexados à inflação multiplicou o capital por 10,5 vezes em duas décadas, deixando o principal índice de ações brasileiro para trás por uma margem impressionante. O IMA-B 5+ entregou 12,5% ao ano contra 8,7% do Ibovespa no mesmo período. Mas será que esse cenário se repete?
Os números desafiam a crença de que enriquecer exige assumir riscos crescentes no mercado acionário. R$ 100 mil aplicados há 20 anos no índice de títulos longos indexados ao IPCA teriam virado R$ 1,05 milhão hoje. Na bolsa, o mesmo montante chegaria a R$ 530 mil.
O que os índices revelam sobre risco e retorno
A comparação entre classes de ativos expõe um padrão surpreendente. Veja os retornos anualizados de 2004 a 2024:
- IMA-B 5+ (títulos IPCA+ longos): 12,5% a.a.
- IMA-B (títulos IPCA+ geral): 12,1% a.a.
- IRF-M (títulos prefixados): 11,2% a.a.
- CDI: 10,1% a.a.
- Índice de Dividendos (melhor ação): 13,2% a.a.
- Ibovespa: 8,7% a.a.
- Small Caps: 6,9% a.a.
- Ouro: 9,7% a.a.
- Dólar: 4,3% a.a.
O melhor índice de ações superou o IMA-B 5+ por apenas 0,7 ponto percentual ao ano. Em troca, o investidor precisou conviver com a volatilidade inerente às ações. O prêmio pelo risco, historicamente, foi mínimo.
Quanto capital era preciso para chegar a R$ 5 milhões
Invertendo a conta: qual valor inicial, há 20 anos, resultaria em R$ 5 milhões hoje (valores nominais, brutos de impostos e custos)?
- CDI: aproximadamente R$ 730 mil
- IRF-M: aproximadamente R$ 598 mil
- IMA-B: aproximadamente R$ 509 mil
- IMA-B 5+: aproximadamente R$ 474 mil
Mas quem não dispunha de centenas de milhares também pôde construir patrimônio relevante. Um investidor que aportasse R$ 5.000 mensais, corrigidos pela inflação, por 30 anos, com retorno real de 6,1% ao ano, atingiria cerca de R$ 5 milhões em poder de compra atual. A disciplina superou a necessidade de “acertar a ação do momento”.
Por que a renda fixa brasileira foi tão generosa
Parte da resposta está no histórico de juros reais elevados. Para financiar sua dívida, o governo brasileiro precisou ofertar remunerações consistentemente acima das economias desenvolvidas. Isso criou uma janela única para quem manteve posição em títulos longos indexados à inflação.
Não significa ausência de risco. Quando os juros sobem, o IMA-B 5+ sofre marcação a mercado negativa — perdas que podem ser expressivas no curto prazo. A natureza do risco difere da renda variável, mas existe.
O que observar daqui para frente
Projetar os próximos 20 anos com base no passado é arriscado. Taxas podem cair, a dinâmica inflacionária pode mudar e os preços dos títulos públicos oscilam. A lição não é abandonar as ações — empresas ainda geram ganhos extraordinários —, mas entender que, no Brasil, construir riqueza não exigiu concentração em ativos de maior risco. Juros reais altos, tempo e reinvestimento fizeram o trabalho pesado. O desafio agora é avaliar se o prêmio oferecido pela renda fixa atual justifica a alocação, considerando o cenário fiscal e a trajetória da Selic.
