Economia

O movimento bilionário de Zuckerberg para blindar a Meta de imposto nos EUA

Mark Zuckerberg assina documentos de nova classe de ações em reunião do conselho da Meta
Zuckerberg cria estrutura acionária para blindar controle da Meta contra imposto sobre fortunas na Califórnia

Mark Zuckerberg fechou um acordo com o conselho da Meta para criar uma nova classe de ações em janeiro, blindando seu controle de voto contra a eventualidade de ter que vender papéis para pagar um imposto sobre grandes fortunas na Califórnia. A manobra expõe o quanto a tributação de bilionários virou risco estratégico para as big techs. Mas a engenharia financeira esconde uma negociação tensa que envolveu prazo curto, ameaça de mudança de residência e uma cláusula de permanência forçada de oito anos.

A conta que assustou o fundador

A Proposta 40, prevista para votação em novembro de 2026, estabelece uma taxa única de 5% sobre o patrimônio de quem era residente do estado em 1º de janeiro deste ano. Com fortuna estimada em US$ 247 bilhões, a conta de Zuckerberg beirava os US$ 12,5 bilhões.

Para quitar esse valor sem abrir mão do comando, ele precisaria vender ações classe B — as que garantem voto múltiplo. Simulações internas mostravam que seu poder cairia de 60,6% para cerca de 53%, abrindo brecha para perda de controle majoritário.

A solução encontrada foi criar ações classe C, sem direito a voto, para distribuir aos acionistas atuais. Na prática, Zuckerberg troca papéis votantes por não votantes, mantendo a proporcionalidade de influência mesmo se precisar vender fatia da participação para pagar o tributo.

Prazo de setembro e a casa em Palo Alto

Documentos da SEC revelam que a negociação arrastava-se desde julho. Em meados de setembro, Zuckerberg impôs um ultimato: colocaria a mansão de Palo Alto à venda se o acordo não saísse.

A venda pública do imóvel seria sinal inequívoco de mudança de domicílio fiscal — o que, por sua vez, geraria crise de imagem e dúvidas sobre seu compromisso com a empresa. O conselho cedeu e fechou o “Founder Alignment Agreement” dias antes do prazo.

O preço da permanência: oito anos ou sede fora

Como contrapartida, o fundador comprometeu-se a manter residência na Califórnia por mais oito anos. Só três eventos rompem a cláusula:

  • Mudança da sede global da Meta para outro estado;
  • Saída definitiva do cargo de CEO;
  • “Circunstâncias imprevistas” não detalhadas no documento.

Essa trava transforma o fundador em refém voluntário do ecossistema californiano, justamente enquanto a empresa acelera investimentos em inteligência artificial.

O temor do êxodo no Vale do Silício

A Meta admitiu nos registros que a aprovação do imposto pode desencadear saída em massa de fundadores e executivos de alto patrimônio. O argumento: a perda de talentos-chave — especialmente em IA — comprometeria o ritmo de inovação e a competitividade nacional.

Juristas ouvidos pelo New York Times preveem batalha judicial imediata. O cerne da disputa será a constitucionalidade de tributar retroativamente quem já residia no estado antes da aprovação da medida.

Resultados do trimestre e o custo dos acordos

O anúncio da reestruturação coincidiu com o balanço do terceiro trimestre. A receita superou projeções, mas o lucro líquido sofreu impacto de quase US$ 10 bilhões devido a acordo judicial com a maioria dos estados americanos — processo separado da questão tributária californiana.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis definirão se a blindagem funcionou: o resultado da votação da Proposta 40 em novembro, eventuais contestações judiciais à retroatividade do imposto e a capacidade da Meta de manter seu roteiro de IA sem dispersão de liderança. Se o tributo for derrubado ou modificado, a nova classe de ações permanece — estrutura permanente para um risco que pode ser temporário.