Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) selaram, na prática, um acordo para quebra mútua de sigilos bancários, fiscais e telefônicos — mas o diabo mora nos detalhes. O candidato do PL condicionou a liberação dos últimos 20 anos à ampliação do alcance pedido ao petista, que respondeu com uma metáfora de truco e marcou a formalização no TSE para esta quinta-feira (22), às 11h.
O embate, que vinha se arrastando há dias, ganhou contornos de jogo de cartas na tarde de quarta (21). Entenda o que está em jogo e por que o desfecho pode influenciar a reta final da campanha.
Flávio impõe contrapartida e cita ex-assessor de Lula
Pela manhã, em Guarulhos (SP), Flávio Bolsonaro caminhou ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Horas depois, protocolou no TSE a autorização para levantamento de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico referentes a duas décadas.
A novidade está na condição: o petista precisaria incluir no pacote os dados de Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete da Presidência. A equipe de Flávio argumenta que a medida equipararia o nível de transparência entre as chapas.
Lula rebate em Belo Horizonte e puxa metáfora do truco
Em ato na capital mineira, Lula defendeu a expansão do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte público aos fins de semana. Questionado sobre os sigilos, não fugiu do confronto retórico:
“Eu, nesta semana, pedi para o Flávio abrir o sigilo. Hoje, ele inventou um monte de mentira e trucou seis. Eu vou meter um nove na cara dele amanhã. Ele não tem nenhuma carta boa, só tem mentira.”
A referência ao jogo de baralho — popular no interior de Minas — sinalizou disposição para elevar a aposta. Minutos depois, a coordenação petista confirmou: aceita as condições do adversário e levará o termo assinado ao TSE amanhã.
O que muda com a ampliação pedida por Flávio
- Escopo original: sigilos dos candidatos e cônjuges.
- Nova exigência: inclusão de Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete.
- Prazo coberto: 20 anos (2006–2026).
- Natureza dos dados: bancários, fiscais e telefônicos.
Juristas ouvidos pela reportagem explicam que a quebra de sigilo de terceiros — no caso, um ex-servidor — depende de fundamentação específica perante o ministro relator no TSE. A inclusão não é automática.
Ato evangélico em Brasília reforça palanque amplo
Enquanto a negociação corria, o grupo “Cristãos pela Democracia” reuniu evangélicos, católicos e espíritas na capital federal. O deputado Henrique Vieira (PSOL-RJ) afirmou que a iniciativa nasceu da percepção de risco à democracia e defendeu pautas de “vida em abundância”: saúde, moradia, educação e dignidade.
O evento ilustra a estratégia da campanha petista de costurar apoios além do eleitorado tradicional de esquerda, mirando o eleitor religioso indeciso.
Próximos passos: o que observar a partir de quinta
A entrega formal no TSE, às 11h, será o primeiro teste prático do acordo. Três pontos merecem atenção:
- Se o ministro relator homologa a inclusão do ex-assessor no mesmo termo;
- Qual o prazo efetivo para que os dados cheguem às equipes de campanha;
- Eventuais recursos protelatórios — de qualquer lado — junto ao Supremo.
Até lá, ambos os candidatos mantêm agendas intensas: Flávio segue para o Sul na sexta, enquanto Lula percorre o Nordeste no fim de semana. O “nove” prometido por Lula será jogado na mesa do tribunal — e o país acompanhará cada carta virada.
