O governo federal lança nesta semana a terceira grande rodada de renegociação de dívidas em três anos, com um teto inicial de R$ 90 bilhões — valor superior à soma dos dois programas anteriores. A medida promete alívio imediato para milhões, mas dados do Banco Central revelam um paradoxo: a inadimplência nunca esteve tão alta.
O que muda no Desenrola 3.0
A Caixa Econômica Federal atuará como compradora de carteiras inadimplentes de bancos e varejistas, com deságio mínimo de 90% definido em lei. Na prática, isso permite que o consumidor quite débitos de cartão, crédito pessoal e contas de serviços (atrasados entre 2 e 4,5 anos) com abatimentos que podem chegar ao mesmo patamar.
Diferente das versões anteriores, o foco agora é a aquisição direta dos “estoques” podres das instituições. O Ministério da Fazenda elevou a estimativa de R$ 15 bilhões para R$ 90 bilhões até o fim do ano, sinalizando apetite por volume.
Bancos grandes já colheram os frutos
No Desenrola 2.0, encerrado em agosto, o Nubank liderou renegociações acima de R$ 1 bilhão, cortando seu custo de crédito em 5% (economia de US$ 85 milhões). O Bradesco aparece em segundo, com mais de R$ 660 milhões repactuados. Ambos concentram clientela de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), público-alvo do programa.
Apesar do sucesso pontual, bancos privados ainda avaliam se vendem carteiras ao governo nesta nova fase. A rentabilidade da venda com 90% de desconto precisa compensar a manutenção do ativo no balanço.
O mercado secundário por trás da operação
A compra de dívidas vencidas há mais de 90 dias é um negócio consolidado e em expansão:
- Até 2018: R$ 20 a 25 bi/ano (Deloitte)
- 2019 a 2022: R$ 30 a 35 bi/ano
- Desde 2023: R$ 50 a 55 bi/ano
A consultoria estima outros R$ 600 bilhões “fora do balanço” dos bancos — um oceano de papel podre que o Desenrola 3 tenta drenar de uma só vez. Para Ricardo Marin, da Deloitte, o programa é “arrojado, mas viável”, embora o volume total possa exigir parcelamento no tempo.
O efeito rebote que ninguém comemora
Enquanto os programas se sucedem, a inadimplência no crédito livre renovou o recorde da série histórica (iniciada em 2011): 6,61% dos empréstimos estão atrasados há mais de 90 dias (dados de agosto do BC). Segundo o UBS BB, a base de negativados cresceu 2,7 milhões desde o fim de 2023, totalizando 84 milhões de brasileiros (51% da população adulta).
Analistas do UBS BB alertam: a sucessão de “Desenrolas” cria risco moral. O devedor passa a adiar pagamentos na expectativa de um novo perdão estatal, postergando o ajuste de contas.
Duas propostas, mesmo diagnóstico falho
No debate da Band, Flávio Bolsonaro (PL) apresentou alternativa: compra das dívidas pela Caixa com carência de 6 meses (PF) e 1 ano (PJ), juros menores e congelamento do saldo. O ministro Dario Durigan (Fazenda) classificou a ideia como “impossível de implementar” e danosa ao crédito para consumo e moradia.
Especialistas convergem: nenhum dos modelos ataca as causas estruturais.
- Juros reais elevados pressionados pelo risco fiscal.
- Ausência de educação financeira no momento da contratação — não meses depois, em cartilhas.
- Falta de transparência no custo total da dívida (parcela x renda comprometida).
Para Lauro Gonzalez (FGV Cemif), o Desenrola 3 é “política de alívio financeiro, não de combate ao superendividamento”. Carol Stange reforça: a renegociação só funciona se o devedor entender, antes de assinar, quanto aquela parcela pesa no orçamento real.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão se o programa vira case de sucesso ou apenas mais um paliativo caro: a adesão dos bancos privados na venda de carteiras, a trajetória da inadimplência nos próximos trimestres (já em recorde) e a disposição política de endereçar a educação financeira e o custo do crédito — sem os quais o “Desenrola 4” será inevitável.
