Economia

Mineradora australiana avança em MG com US$ 450 mi, mas moradores temem “laboratório a céu aberto”

Vista aérea da serra de Poços de Caldas com área de mineração de terras raras e equipamentos pesados
Projeto Colossus da Viridis em Poços de Caldas (MG): US$ 450 mi para extração de terras raras

A Viridis, mineradora australiana, começou a encomendar equipamentos para extrair terras raras em Poços de Caldas (MG) com aporte de US$ 450 milhões — cerca de R$ 2 bilhões — mesmo diante de forte oposição local. O projeto Colossus tem licença prévia concedida em dezembro de 2025 e aguarda a licença de instalação para iniciar as obras. O que está em jogo vai além de uma mina: é o teste de um modelo de mineração inédito no Brasil, colado a áreas urbanas.

O que são terras raras e por que o mundo disputa cada grama

Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Nomes pouco conhecidos, mas essenciais para ímãs de alta potência que movem motores elétricos, geradores eólicos e equipamentos de ressonância magnética. Hoje, a China controla a maior fatia da cadeia global. A pressão por descentralização colocou o Brasil no radar.

Atualmente, só existe uma operação comercial no país: a Serra Verde, em Minaçu (GO), agora nas mãos da americana USA Rare Earth. A Viridis quer ser a segunda — e a primeira no Sudeste — com acordo de refino já fechado com a belga Solvay, que processará o carbonato na França para abastecer a Europa.

Dinheiro público e sinal verde do BNDES

Em setembro, o banco de fomento liberou R$ 77,5 milhões via linha para minerais críticos da transição energética. O recurso não entra no capex da mina; financia plantas demonstrativas de reciclagem e separação de óxidos. Duas novas unidades devem ser erguidas a partir de 2026, além de uma já construída com capital próprio.

Segundo Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis Brasil, o processo usará sulfato de amônio para lixiviar a argila iônica. A empresa garante que 50% do custo da planta vai para recuperação de água, filtragem e neutralização de resíduos. A argila lavada retorna ao solo sem o químico.

Sete projetos, 10 milhões de toneladas e uma APA no meio

A Viridis não está sozinha. Sete empreendimentos miram a APA da Pedra Branca, abrangendo Poços de Caldas, Caldas e Andradas. Juntos, preveem mover mais de 10 milhões de toneladas por ano e consumir 180 mil m³ de água por mês — volume equivalente ao abastecimento de uma cidade de 40 mil habitantes.

O Colossus recebeu Classe 6 no licenciamento estadual, o nível de maior potencial de impacto. A área licenciada soma 400 hectares (560 campos de futebol). A meta inicial é processar 5 milhões de toneladas de argila ao ano, extraindo 2 a 3 kg de terras raras por tonelada. Vida útil estimada: 40 anos no plano inicial, com potencial geológico para 200.

Moradores a 300 metros da cava: o ponto de ruptura

O coletivo “Rara é a Vida” nasceu após reunião da empresa com a comunidade. Danielle Vilas Boas, integrante do grupo, aponta que o projeto se aproxima de bairros que concentram 60 mil pessoas — Conjunto Habitacional da Avenida Yolanda, Jardim Contorno e Paraíso.

“Mineração nova, escala nunca testada no país, empresa sem experiência em terras raras: somos cobaias de um laboratório a céu aberto.”

Petersen admite a sensibilidade e diz que a empresa concordou em postergar escavações próximas às casas para avaliar impactos. “Se comprovado incômodo, mudamos o plano.” Medidas contra poeira incluem cercas verdes e operação a úmido.

Relatório federal aponta riscos cumulativos e radioatividade

Uma comitiva interministerial visitou a região em junho e produziu relatório de 60 páginas em setembro. O documento alerta para impactos cumulativos em água, solo, biodiversidade e saúde pública, agravados pela proximidade de passivos radioativos — como a mina de urânio em descomissionamento da INB em Caldas.

Riscos listados: exposição a radionuclídeos e metais pesados, poluição atmosférica, sonora e geração de poeira. O Ministério Público junto ao TCU (MPTCU) pediu auditoria operacional no Ibama, ANM e demais órgãos federais envolvidos no licenciamento, além de esclarecimentos sobre passivos, planos de fechamento e garantias financeiras.

O que observar daqui para frente

A emissão da licença de instalação é o próximo gatilho. Se sair, as obras começam e o cronômetro do teste real acelera. Acompanhe: (1) a resposta da Viridis às condicionantes do relatório federal; (2) eventuais decisões do TCU sobre a auditoria pedida pelo MPTCU; (3) a capacidade da empresa de cumprir a promessa de recuperação simultânea — cavas pequenas, replantio em um ano — em escala industrial; (4) a reação do mercado de terras raras se o Brasil consolidar uma segunda origem confiável fora da China. Para investidores e gestores de cadeia, o desfecho em Poços de Caldas pode ditar o ritmo de novos aportes em minerais estratégicos no Sudeste.