O maior leilão de partilha do pré-sal terminou com sete dos 13 blocos arrematados e R$ 530 milhões em bônus de assinatura para a União. O resultado amplia a área exploratória sob esse regime em 58%, mas esconde um detalhe que intriga analistas: não houve disputa real em nenhuma das áreas.
Todas as sete vencedoras apresentaram lances isolados. Ainda assim, o ágio médio superou 108%, com picos próximos de 500%. Por que grandes petroleiras pagariam prêmios tão altos sem concorrentes na mesa?
O mapa dos vencedores e os números que chamam atenção
Petrobras e Prio (antiga PetroRio) ficaram com dois blocos cada. A norueguesa Equinor levou dois — um em consórcio com a portuguesa Galp. O bloco Jade foi para um consórcio chinês (CNOOC 70%, Sinopec 30%).
Veja os principais números por área:
- Magnetita (Prio): 32,80% de óleo excedente | Ágio 132,79%
- Hematita (Prio): 7,18% de óleo excedente | Ágio 315,03%
- Azurita (Petrobras): 30% de óleo excedente | Ágio 139,81%
- Jade (CNOOC/Sinopec): 18,20% de óleo excedente | Ágio 65,76%
- Cruzeiro do Sul (Petrobras): 15,27% de óleo excedente | Ágio 8,07%
- Rubi (Equinor): 25,02% de óleo excedente | Ágio 91,72%
- Rodocrosita (Equinor/Galp): 15,52% de óleo excedente | Ágio 494,64%
Somados, os compromissos mínimos de investimento chegam a R$ 778,4 milhões. Os contratos devem ser assinados em 26 de fevereiro de 2027, após pagamento dos bônus e entrega de documentação.
Por que não houve disputa — e mesmo assim o ágio explodiu
Dezenove empresas estavam habilitadas, mas apenas seis ofertaram. No modelo de partilha, vence quem oferece à União a maior fatia do óleo excedente (o que sobra após custos). As ofertas são sigilosas: ninguém sabe o lance do concorrente nem em quais blocos ele apostou.
Isso cria um cenário único. Mesmo sem rival direto, cada empresa precisa calibrar sua proposta acima do piso do edital para garantir a vitória, sem saber se outro player mirou o mesmo ativo. O resultado são ágios expressivos — especialmente em Rodocrosita (494,64%) e Hematita (315,03%) — que sinalizam apetite por ativos de alto potencial geológico, mas também cautela estratégica.
Os seis blocos não arrematados (Turmalina, Larimar, Aragonita, Opala, Granada, Cerussita) voltam à “prateleira” para a próxima rodada.
A rodada da tarde e a aposta na Margem Equatorial
Enquanto a partilha dominava a manhã, a ANP iniciou às 14h o 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão: 313 blocos em 22 setores, incluindo onshore e offshore. A diferença crucial: aqui vence quem paga o maior bônus de assinatura fixo, sem compartilhamento de produção.
Dois setores estão na Bacia do Ceará, parte da Margem Equatorial Brasileira — vista pela indústria como a nova fronteira promissora. Quarenta e seis empresas estão habilitadas para essa etapa, quase o triplo da manhã.
Em ambos os modelos, na fase de produção incidem royalties e participação especial (para grandes campos), mantendo a compensação financeira aos entes federados.
O que ambientalistas e sindicatos estão questionando
O Instituto Arayara entrou com Ação Civil Pública pedindo a suspensão do leilão, alegando sobreposição de áreas com territórios indígenas, quilombolas, assentamentos, unidades de conservação e zonas de pesca artesanal. Manifestantes protestaram em frente à sede da ANP durante a sessão.
Do outro lado, Ineep (vinculado à FUP) e IBP (entidade patronal) veem os leilões como vetores de dinamismo industrial, geração de emprego e segurança energética. O diretor-geral da ANP, Artur Watt Neto, reforçou: o pré-salt segue como “uma das mais relevantes fronteiras exploratórias do mundo”, respondendo por 82,6% da produção nacional em setembro.
O próximo passo: Bacia de Pelotas e o fantasma do fracking
O secretário nacional de Petróleo e Gás, Renato Dutra, antecipou que o governo prepara a oferta de mais de 50 blocos na Bacia de Pelotas (litoral Sul), região com geologia análoga à costa africana produtora. “É um próximo passo”, disse.
Dutra também reafirmou interesse na exploração não convencional — o fraturamento hidráulico (fracking). A técnica, que injeta água, areia e químicos sob alta pressão para fraturar rochas, enfrenta resistência ambiental e tramita no STJ.
O que observar daqui para frente: a assinatura dos contratos em fevereiro de 2027; o desfecho do leilão de concessão desta quarta; a publicação do edital da Bacia de Pelotas; e o julgamento sobre fracking no STJ. Cada um desses movimentos redesenha o tabuleiro de risco e oportunidade para quem opera — ou investe — no setor de óleo e gás no Brasil.
