Tecnologia

TCE-AL e UFAL: a parceria em IA que vai virar o jogo nas contas públicas

Representantes do TCE-AL e UFAL assinam convênio de IA para fiscalização de contas públicas
Parceria entre TCE-AL e UFAL usa inteligência artificial para revolucionar a auditoria de recursos públicos em Alagoas.

O Tribunal de Contas de Alagoas (TCE-AL) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) assinaram um convênio estratégico para desenvolver soluções de inteligência artificial aplicadas à fiscalização de recursos públicos. O acordo prevê a criação de ferramentas capazes de cruzar milhões de dados em segundos, reduzindo o tempo de análise de processos de meses para dias. Mas a verdadeira revolução está no que essa tecnologia pode revelar sobre padrões ocultos de desperdício.

Para o diretor-geral do TCE-AL, Arthur Toledo, a parceria marca a transição do controle reativo para o preditivo. A universidade entra com expertise em machine learning e processamento de linguagem natural; o tribunal, com a base histórica de contratos, licitações e prestações de contas acumulada nas últimas duas décadas. O primeiro piloto deve ser entregue ainda no primeiro semestre de 2025.

O que muda na prática para quem fiscaliza

Hoje, auditores gastam até 70% do tempo em tarefas manuais: conferir notas fiscais, comparar assinaturas, validar planilhas. A IA assume esse volume operacional e libera os servidores para análises de risco e investigações complexas. Estima-se que a produtividade por auditor salte entre 40% e 60% nos primeiros 18 meses de uso contínuo.

Além da velocidade, a tecnologia promete reduzir falsos positivos. Algoritmos treinados com dados alagoanos aprendem a distinguir erros formais de indícios reais de fraude — algo que sistemas genéricos não conseguem fazer com precisão. O resultado: menos processos arquivados por falta de provas e mais denúncias fundamentadas encaminhadas ao Ministério Público.

Foco inicial: três frentes de alto impacto

  • Anomalia em licitações: detecção de conluio entre empresas, sobrepreço recorrente e direcionamento de editais.
  • Folha de pagamento fantasma: cruzamento de dados de RH, previdência e frequência para identificar servidores inexistentes ou acúmulos ilegais.
  • Execução orçamentária: alertas automáticos quando empenhos fogem do padrão histórico da unidade gestora.

Esses módulos foram definidos em conjunto com a equipe de auditoria do tribunal, com base nos tipos de irregularidade que mais geram prejuízo ao erário estadual nos últimos cinco anos. Juntos, respondem por cerca de 65% dos recursos questionados em julgamentos recentes.

O diferencial do desenvolvimento local

Diferente de contratar soluções de prateleira, o convênio garante que os modelos sejam treinados com a linguagem, a legislação e a realidade administrativa de Alagoas. Pesquisadores da UFAL já mapearam mais de 12 terabytes de dados não estruturados — PDFs, imagens de notas, áudios de sessões — que alimentarão os primeiros modelos.

A parceria prevê também a capacitação de 30 servidores do TCE-AL em fundamentos de ciência de dados, criando uma equipe interna capaz de manter e evoluir os sistemas sem dependência exclusiva de fornecedores externos. O investimento total, dividido entre contrapartidas das duas instituições, gira em torno de R$ 2,3 milhões nos primeiros 24 meses.

Riscos e salvaguardas previstas no acordo

Todo o desenvolvimento segue a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e normas de segurança da informação do tribunal. Dados sensíveis são anonimizados antes de entrarem no pipeline de treinamento, e o acesso aos modelos é restrito a servidores habilitados. Uma comissão mista, com reuniões trimestrais, monitora viés algorítmico e transparência nas decisões automatizadas.

Outro ponto sensível: a responsabilidade final pela decisão continua humana. A IA emite alertas e probabilidades; o auditor julga. O convênio veda explicitamente a delegação de atos de competência constitucional do tribunal a sistemas automatizados.

O que observar daqui para frente

O cronograma prevê a validação do primeiro módulo (licitações) em ambiente controlado até março de 2025, com expansão gradativa para as demais frentes até dezembro. Se os indicadores de precisão superarem 90% — meta interna do projeto —, o modelo alagoano pode ser replicado em outros tribunais de contas do Nordeste através de acordo de cooperação técnica já em discussão. Para gestores públicos e empresas que contratam com o estado, a mensagem é clara: a fiscalização vai ficar mais rápida, mais cirúrgica e muito mais difícil de driblar.