Economia

O veto que paralisou as bets: 36 marcas já cortam empregos e número assusta

Funcionários de empresas de apostas online preocupados após veto governamental no Brasil
O veto às bets provocou demissões em 36 marcas licenciadas, atingindo 10 mil empregos diretos no setor.

O governo federal derrubou a autorização para apostas online e, em poucos dias, 36 das 188 marcas licenciadas já iniciaram rodadas de demissão. O levantamento da Associação de Mulheres da Indústria do Gaming (Amig) revela que o impacto atinge sobretudo empresas de menor porte, mas o efeito cascata já alcança fornecedores e startups de marketing esportivo.

A pergunta que fica: quantos dos 10 mil empregos diretos do setor resistirão à incerteza jurídica das próximas semanas?

O primeiro choque: pequenos e médios não aguentaram a primeira semana

A H2Bet, nascida no ecossistema de clubes de pôquer, cortou 170 dos 270 colaboradores. O diretor de operações, Diego Breda de Carvalho, classificou o dia como o pior em 28 anos de empreendedorismo no Brasil. A empresa afirma que manterá o H2 Club e patrocínios a torneios como o BSOP, mas a operação de apostas online foi paralisada.

Na Rivalo, quase toda a equipe de cerca de 100 pessoas recebeu aviso prévio. O diretor para o Brasil, Daniel Eskinazi, confirmou que a medida provisória 1.394/2026 interrompeu as atividades, mas disse que a empresa mantém quadro reduzido para eventual retomada.

O Rei do Pitaco, que teve aporte inicial do Grupo Globo, demitiu 40 funcionários e colocou outros 30 em férias coletivas — mais da metade do time de 100 pessoas.

O efeito cascata que ninguém contabilizou nas estatísticas oficiais

Fornecedores especializados sentem o baque antes mesmo de aparecerem nos relatórios setoriais. A Alob Sports, parceira da Betano em eventos, live marketing e influenciadores, desligou diversos profissionais. O sócio-fundador Bernardo Pontes descreve o cenário:

  • Empresas de cenografia e segurança contratadas para eventos ficaram sem demanda
  • Promotores e fornecedores de brindes também foram impactados
  • O mercado pode voltar, mas “vai voltar diferente” — a regra do jogo precisa ser clara antes de qualquer retomada

A startup portuguesa Hoopers, no Brasil desde 2023, viu dois contratos suspensos, outros paralisados e reuniões canceladas em uma única semana. O fundador André Costa chamou o período de “o mais conturbado que já vivi”.

Por que a insegurança jurídica virou “golpe fatal” para quem já cambaleava

Executivos ouvidos sob reserva descrevem um cenário pré-existente de fragilidade: queda no número de jogadores ativos nos primeiros meses de 2026 e concentração da clientela nos maiores sites. Pequenas bets já flertavam com a falência durante o próprio mercado regulado.

A impossibilidade de planejar fluxo de caixa, contratos e obrigações trabalhistas nos próximos meses transformou o veto em sentença de morte para negócios sem reservas robustas. Mesmo uma reversão judicial não apaga danos já concretizados — demissões realizadas, contratos rompidos, confiança abalada.

Os grandes seguram as peças; os pequenos contam os prejuízos

Betano e Superbet, com estruturas multinacionais e caixa acumulado, optaram por manter equipes intactas. O argumento: talentos especializados são difíceis de reposicionar rapidamente. A Ana Gaming, dona da Bet 7K e Cassino, confirmou dispensas sem detalhar volumes, mas admitiu que “encerrar operações por determinação legal compromete as condições que sustentam postos de trabalho”.

Enquanto isso, a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) iniciou coleta de dados via formulário junto às associadas. A entidade admite: “essa onda já começou na semana passada” e a dimensão total ainda é desconhecida.

O que observar daqui para frente: três variáveis que decidem o futuro do setor

Quem acompanha o mercado — seja como investidor, prestador de serviços ou profissional do setor — deve monitorar três frentes simultâneas:

  • Judicialização: a velocidade e o teor das decisões sobre a MP 1.394/2026 ditarão se há janela para reativação ou se o fechamento se torna irreversível.
  • Caixa remanescente: empresas com fôlego financeiro para 6 a 12 meses de inatividade terão vantagem competitiva brutal na eventual reabertura.
  • Migração de talentos: a dispersão de equipes técnicas (produto, compliance, risco, marketing regulado) pode criar gargalo de mão de obra qualificada quando — e se — o mercado voltar.

O estudo da LCA Consultoria estimava 10 mil empregos diretos e 5 mil indiretos antes do veto. A conta real, daqui a 30 dias, provavelmente será outra. O segredo que ninguém conta: a regulação não acabou — ela apenas entrou em modo de sobrevivência.