Economia

O abismo fiscal que ninguém vê no plano de um Bolsonaro 2

Gráfico de abismo fiscal com bandeira do Brasil e silhueta de Bolsonaro, representando risco econômico
O abismo fiscal oculto no plano de um eventual segundo governo Bolsonaro preocupa analistas de mercado.

O mercado reagiu à vitória no primeiro turno precificando mais austeridade, mas a festa pode acabar antes de começar. Existe um abismo entre a expectativa dos agentes financeiros e a realidade política que espera o próximo governo. O risco não está no que foi prometido, mas no que foi omitido.

A prioridade que não é a economia

O primeiro sinal de alerta vem da agenda prioritária. Não há clareza se o foco inicial será o ajuste das contas ou o chamado “Plano Barrabás” — a anistia a envolvidos em atos golpistas — e a reescrita da Constituição. Enquanto a equipe econômica não for apresentada, a dúvida permanece: a energia política será gasta em “redemocratização” ou em cortar gastos?

O fantasma da gestão anterior

O histórico recente não inspira confiança em ortodoxia. A administração passada ficou marcada por manobras contábeis em ano eleitoral, resistência à reforma da Previdência em 2019 e a entrega de cargos estratégicos ao Centrão em troca de sobrevivência política. A pandemia atrapalhou, mas as escolhas políticas definiram o rumo fiscal.

O cenário macro de 2027: recessão à vista

Mesmo com um plano perfeito, o ponto de partida é hostil. Projeções indicam crescimento baixo do PIB no primeiro ano de mandato. Ajustes fiscais costumam ser recessivos no curto prazo, o que derruba a arrecadação justamente quando a reforma tributária começa a criar incerteza na base de cálculo.

  • Famílias: endividamento alto e inadimplência caindo devagar;
  • Empresas: faturamento pressionado e dívidas sufocantes;
  • Emprego: geração de vagas estagnada ou queda.

Superávit primário? A conta não fecha

Dificilmente haverá superávit nas contas federais. A receita não acompanha a despesa obrigatória. Cortar gastos significa congelar benefícios sociais — o que atinge a base mais pobre — ou reduzir isenções de setores organizados. Em qual das duas frentes um governo de perfil populista optaria por sangrar?

O Congresso e o preço do Centrão

Supondo que exista um plano coerente, ele precisa passar pelo Legislativo. O Congresso aceitará “cortar na carne” das emendas parlamentares? A negociação envolve moeda de troca: cargos, verbas e, potencialmente, blindagem jurídica para aliados em investigações como as das emendas de relator, INSS ou casos de corrupção. O custo do apoio pode inviabilizar o próprio ajuste.

A incógnita da equipe e a resistência do tempo

Quatro anos é um horizonte longo para um ajuste contínuo. A equipe da Fazenda e da Casa Civil terá capacidade de negociação e blindagem contra pressões internas? Se a Casa Civil estiver ocupada em mudar o “sistema” e confrontar o Supremo, a articulação política para votar medidas impopulares simplesmente não acontece.

O que observar daqui para frente

O desenho da equipe econômica nas primeiras semanas dirá mais do que qualquer discurso de campanha. Acompanhe três variáveis decisivas: a velocidade de envio do arcabouço fiscal ao Congresso, a disposição de vetar emendas que furam o teto e a definição clara sobre prioridade legislativa — se economia ou pautas de costumes e anistias. O mercado precificou a esperança; a realidade cobrará a fatura na execução orçamentária de 2025.