Economia

Mina da 2ª Guerra no RN volta ao radar: australianos apostam R$ 3 mi no tungstênio

Mina de tungstênio Malhada do Angico no Seridó potiguar, área histórica da Segunda Guerra Mundial
Antiga mina de tungstênio no RN atrai investimento australiano de R$ 3 milhões após décadas inativa.

A australiana Gold Mountain garantiu exclusividade por 12 meses para avaliar a compra da antiga mina Malhada do Angico, no Seridó potiguar, onde tungstênio foi extraído durante a Segunda Guerra Mundial. O movimento expõe uma corrida silenciosa por minerais críticos que o Brasil ainda explora pouco. A pergunta que fica: por que uma área inativa há décadas voltou a valer milhões agora?

O “mineral de guerra” que virou peça-chave da tecnologia

O tungstênio ganhou apelido histórico por endurecer aços usados em blindagens e projéteis. Hoje, sua aplicação mudou de alvo: ligas de alta resistência, ferramentas de corte, componentes aeroespaciais e substratos de semicondutores dependem do metal. A China controla cerca de 80% da produção mundial, e o aperto de oferta fez os preços dispararem em 2026.

Países ocidentais correm para diversificar fontes. O Brasil, com geologia favorável e jurisdição estável, entrou no radar de grandes fundos e mineradoras juniores. Malhada do Angico, com 857 hectares próximos a Parelhas, é um ativo “brownfield” — já teve lavra, infraestrutura e dados históricos —, o que acelera a curva de risco.

O acordo: marcos, não promessas

A Gold Mountain não comprou o projeto ainda. Pagou R$ 1 milhão à Emprogeo Mining Business EPP pelo direito exclusivo de due diligence técnica, jurídica e regulatória. O contrato prevê duas parcelas adicionais de R$ 1 milhão cada, totalizando R$ 3 milhões se tudo avançar:

  • Parcela 2: liberada se a ANM aprovar o Relatório Final de Pesquisa (entregue em 2016) e a análise da compradora for satisfatória.
  • Parcela 3: condicionada à anuência da agência para transferir os direitos minerários à australiana.

O processo está sob análise da ANM. Não há prazo público para decisão.

Exploração começou antes da assinatura final

Mesmo sem a titularidade, a Gold Mountain já perfura. A primeira fase usa trado nos rejeitos históricos para estimar teores, espessura e coletar amostras para testes metalúrgicos. Resultados ainda não foram divulgados.

A etapa seguinte prevê sondagem diamantada ao longo de 2 km de extensão da estrutura mineralizada, atingindo 120 metros de profundidade. O objetivo: provar continuidade da scheelita (minério principal de tungstênio) abaixo e nas laterais das antigas frentes de lavra. O início depende de licenças ambientais e regulatórias.

“Estamos acelerando o programa de exploração e iniciaremos a perfuração assim que as licenças necessárias forem obtidas”, afirmou David Evans, diretor-executivo da Gold Mountain.

Por que isso importa para quem investe no setor

Três vetores convergem neste ativo:

  • Geologia conhecida: a mina operou na década de 1940 pela Mineração Fluminense; há dados de teores e metalurgia da época.
  • Ciclo de preços: o choque de oferta de 2026 reprecificou projetos marginais — Malhada do Angico encaixa-se nessa janela.
  • Estratégia nacional: o tungstênio integra a lista de minerais críticos do governo federal; projetos avançados podem acessar linhas de financiamento e prioridade regulatória.

O que observar daqui para frente

Três gatilhos definem se o cheque de R$ 3 milhões vira aquisição real: (1) parecer da ANM sobre o relatório de 2016; (2) resultados das campanhas de trado e diamantada — teores acima de 0,5% WO₃ em rejeitos já sinalizam viabilidade econômica em cenário de alta; (3) emissão das licenças de instalação para sondagem profunda. Se um deles travar, a exclusividade expira e a área volta ao mercado. Para o investidor, o sinal está na velocidade dos laudos metalúrgicos: eles ditam o CAPEX de uma eventual planta de beneficiamento.