A segunda maior fabricante de ônibus da China, Zhongtong, confirmou sua estreia no Brasil para 2027 com um plano agressivo: investir até R$ 100 milhões em fábrica própria e mirar 15% do mercado nacional. A operação começa com importações, mas a produção local já tem endereço certo — só espera a eleição de outubro para ser anunciada.
O modelo chileno que o Brasil vai copiar
A entrada ocorre via parceria com a TEVX, do Grupo Águia (controlador da Stella Barros), após tentativa frustrada de representar a concorrente Higer. O CEO Carlos Souza, ex-enel, revelou que o espelho é a operação chilena: lá, a Zhongtong entregou cerca de 900 ônibus em 2024 e virou referência em pós-venda e estoque de peças.
O portfólio inicial traz cinco urbanos de piso baixo (7 a 18 metros) e um rodoviário. A meta de volume para justificar a fábrica nacional é exatamente a replicada do Chile: 900 unidades por ano, o que equivaleria a fatiar 15% do mercado brasileiro de chassis.
Por que a fábrica depende das urnas de outubro
O município escolhido para a planta tem “99% de chance”, segundo Souza, mas o anúncio fica para depois do pleito municipal por “razões fiscais”. Enquanto isso, uma comitiva viaja à China para definir a origem dos recursos: se virão 100% do caixa chinês ou em sociedade com os brasileiros.
A produção começará em regime CKD (kits desmontados), mas ainda não há definição sobre a carroceria. A dúvida é se virão prontas da China ou se serão usadas estruturas nacionais de players como Caio e Marcopolo.
Mais que ônibus: a aposta na recarga e nos pequenos municípios
A estratégia da TEVX/Zhongtong vai além do chassi. A fabricante chinesa também produz carregadores e sistemas de gestão de energia — ativo que explica a contratação de Souza, ex-executivo da Enel. O pacote inclui:
- Infraestrutura de recarga completa para operadores;
- Consultoria de mobilidade para cidades pequenas e médias;
- Alternativa à compra de ônibus usados de grandes metrópoles.
O foco em municípios menores é calculado: há centenas de cidades com capacidade de eletrificar a frota, mas sem expertise técnica para planejar a transição.
O mapa da concorrência: nove rivais de peso
A Zhongtong não chega ao vácuo. O mercado brasileiro de chassis elétricos já conta com nove players estabelecidos: Scania, Volkswagen, Volvo, Mercedes-Benz, Iveco, Eletra, Agrale, Marcopolo e BYD. A chinesa aposta no custo-benefício e no “case Chile” para quebrar a resistência inicial dos operadores.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se o plano sai do papel no cronograma prometido: o desfecho das negociações na China sobre o aporte (previsto para os próximos meses), a definição da carroceria nacional ou importada — que impacta custo e tempo de entrega — e a capacidade da TEVX de montar uma rede de peças e assistência técnica à altura do padrão chileno antes da primeira unidade nacional sair da linha de montagem. Se a fábrica sair em 2027, o mercado ganha um player com musculatura financeira e tecnologia de recarga própria; se atrasar, a janela de oportunidade nas cidades médias pode fechar com a concorrência já consolidada.
