Economia

O ciclo vicioso do Desenrola: por que renegociar sempre ensina a não pagar

Ilustração de ciclo vicioso: dinheiro público escorrendo para cobrir dívidas privadas renegociadas repetidamente
O Desenrola 3.0 usa R$ 15 bi públicos para comprar dívidas com 90% de desconto, repetindo ciclo que premia inadimplência.

Desde 2023, o governo lançou nove programas de renegociação de dívidas. A repetição expõe uma contradição: se funcionassem, não precisariam ser relançados a cada poucos meses.

O último, Desenrola 3.0, prevê que a União compre dívidas de bancos com desconto mínimo de 90%, a um custo de até R$ 15 bilhões. O dinheiro público cobre prejuízos que o próprio mercado já deu como perdidos.

O rastro de programas em menos de três anos

A sequência começou com o Desenrola Brasil: R$ 53 bilhões renegociados para 15 milhões de pessoas. Veio depois o Desenrola Fies (dívidas estudantis), Pequenos Negócios, Agências Reguladoras e, em 2025, o Desenrola Rural.

Só em 2026, quatro novos editais:

  • Desenrola 2.0 — ampliou faixa de renda e tipos de dívida
  • Desenrola Adimplentes — benefício para quem já paga em dia
  • Desenrola MEI — focado em microempreendedores
  • Desenrola 3.0 — União compra carteiras podres dos bancos

O padrão é claro: a cada nova versão, o escopo aumenta e os critérios afrouxam.

Alívio de dívida funciona — quando tem regra clara

Evidências internacionais mostram que perdão de dívida gera resultados reais. Nos EUA, quem acessou a proteção da lei de falências teve, em cinco anos, renda 25% maior, taxa de emprego quase 7 pontos percentuais acima e mortalidade 30% menor que quem teve o pedido negado.

Na Dinamarca, o efeito durou mais de 25 anos. Dois terços do ganho de renda vieram de gente que voltou a trabalhar. Quando a dívida se torna impagável, ela trava a oferta de trabalho; o alívio rompe esse ciclo.

A diferença que ninguém comenta

Lá fora, o alívio é instrumento permanente, com critérios pré-definidos e análise caso a caso de quem comprova incapacidade de pagar. No Brasil, os programas são eventuais, amplos e lançados em ano eleitoral com desemprego em mínima histórica.

Renegociações generalizadas só se justificam quando um choque atinge toda a economia de vez — pandemia, seca severa, crise financeira sistêmica. Nesses casos, ninguém pode ser responsabilizado individualmente. Funciona como seguro que os contratos de crédito não oferecem.

O que acontece quando o perdão vira rotina

Três efeitos colaterais bem documentados:

  1. Prêmio à inadimplência: só quem está em atraso acessa as melhores condições. Quem paga em dia sente-se penalizado.
  2. Inadimplência estratégica: devedores com capacidade de pagamento deixam de honrar compromissos para entrar no próximo programa.
  3. Moral hazard bancário: credores passam a emprestar mais e com menos análise, sabendo que o Tesouro cobre o prejuízo.

O custo final recai sobre bons pagadores — via juros mais altos e crédito mais restrito — e sobre o Orçamento, que deixa de financiar políticas de efeito duradouro.

O custo de oportunidade que a conta não mostra

Os R$ 15 bilhões do Desenrola 3.0 equivalem, por exemplo, a quase dois anos do orçamento do Pronatec ou a ampliação de vagas em creches para centenas de milhares de crianças. Recursos públicos usados para comprar dívidas já “baixadas” pelos bancos não voltam como investimento produtivo.

O que observar daqui para frente

O próximo gatilho será a adesão dos bancos ao Desenrola 3.0 e o volume real de dívidas adquiridas pela União. Se a adesão for alta, o sinal para o mercado é claro: o risco de crédito privado passa a ter garantia pública implícita. Acompanhe também a inadimplência das faixas beneficiadas nos trimestres seguintes — se subir, confirma-se o ciclo vicioso. Para quem gere caixa ou concede crédito, a regra prática permanece: estruture operações assumindo que renegociações extraordinárias não farão parte do contrato.