Justiça

O segredo que ninguém conta sobre a paridade de gênero nas urnas de 2026

Mulheres políticas em debate no TSE sobre paridade de gênero nas Eleições 2026
Observadoras internacionais discutem a lacuna entre cotas legais e representação feminina real no Congresso.

Mulheres ocuparam o centro do debate político global neste sábado (3), véspera do primeiro turno das Eleições 2026, durante o segundo dia do Programa de Convidados Internacionais do Tribunal Superior Eleitoral. A discussão expôs um abismo entre a legislação e a prática que ainda define quem realmente chega ao poder.

O evento reuniu observadores de dezenas de países para dissecar um paradoxo: o Brasil tem cotas de 30% para candidaturas femininas há décadas, mas a representação efetiva no Congresso mal passa de 18%.

O que os números não explicam sozinhos

Dados apresentados no encontro mostram que, entre 2018 e 2022, o volume de recursos públicos destinados a campanhas de mulheres cresceu 42%. No entanto, a taxa de eleição avançou apenas 3 pontos percentuais. A discrepância aponta para barreiras que o dinheiro não resolve sozinho.

Pesquisadoras presentes citaram três fatores decisivos:

  • Concentração de verbas em poucas candidatas “viáveis” definidas por diretórios partidários
  • Assédio moral e digital desproporcional durante a pré-campanha
  • Ausência de redes de apoio institucionalizadas nos estados

O efeito nos pequenos negócios e nas bases locais

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor. Municípios com bancadas femininas acima de 30% nas câmaras de vereadores apresentam, em média, 22% mais investimentos em creches e saúde básica nos quatro anos seguintes. A correlação não prova causalidade, mas repete-se em 14 dos 17 estados analisados por um estudo da FGV citado no painel.

Para o empresariado local, a leitura é direta: onde há mais mulheres legislando, a previsibilidade orçamentária para setores como educação infantil e atenção primária melhora — o que reduz rotatividade de mão de obra e absenteísmo.

Por que março pode mudar o jogo

Uma resolução do TSE prevista para março de 2025 pode alterar a dinâmica. O texto em discussão obriga partidos a distribuírem, no mínimo, 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda para candidaturas femininas — não apenas lançá-las. Hoje, a regra vale só para o número de registros.

Se aprovada, a medida atinge em cheio a estratégia de “candidatas laranja”: registros criados apenas para cumprir a cota, sem estrutura real de campanha. Estimativas internas do tribunal sugerem que até 40% das candidaturas femininas em 2022 se enquadravam nesse perfil.

O que observar daqui pra frente

Três indicadores valem monitorar nos próximos meses: a taxa de deferimento de registros femininos versus masculinos após a nova regra; a participação de mulheres em debates televisionados nos principais colégios eleitorais; e a proporção de suplentes mulheres assumindo mandatos nos primeiros dois anos. Juntos, esses dados dirão se 2026 será apenas mais uma eleição com cotas — ou a primeira com paridade real na largada.