Economia

Poder de compra de alimentos sobe 11% desde 2022, mas ainda não volta ao pré-pandemia

Gráfico mostra poder de compra de alimentos no Brasil: alta de 11% desde 2022, mas 13% abaixo do pré-pandemia
Poder de compra de alimentos cresceu 11% desde 2022, mas segue 13% inferior ao período pré-covid.

O brasileiro chega às urnas de 2026 com o salário comprando mais comida do que há quatro anos, mas a conta não fecha se o parâmetro for o período anterior à covid-19. É o que revela um levantamento exclusivo da 4intelligence: o poder de compra de alimentos cresceu, porém estacionou num patamar 13% inferior à média da década passada.

A diferença parece técnica, mas bate direto no bolso — e no voto. O economista Bruno Imaizumi cruzou o valor do salário mínimo e a renda média do trabalho com o preço da cesta básica do Dieese em São Paulo. O resultado mostra uma recuperação incompleta, com projeção de estagnação até pelo menos dezembro de 2027.

O que os números mostram na prática

Em agosto deste ano, o piso nacional de R$ 1.621 adquiria 1,8 cesta básica paulistana (cotada a R$ 900,59). Em agosto de 2022, às vésperas da eleição anterior, o mínimo de R$ 1.212 comprava 1,62 cesta (R$ 749,78). A alta nominal foi de 11,3% no período.

O mesmo movimento aparece na renda média do trabalhador. O rendimento habitual de R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto equivalia a 4,07 cestas — 15% acima das 3,54 registradas quatro anos antes. Ainda assim, ambos os indicadores permanecem cerca de 15% abaixo da média observada entre 2010 e 2019.

  • Salário mínimo: 1,8 cesta (ago/2026) vs 2,07 cestas (média 2010-2019)
  • Renda média: 4,07 cestas (ago/2026) vs 4,82 cestas (média 2010-2019)
  • Pico histórico: 2,28 cestas com um salário mínimo (mar/2012)

Por que a recuperação travou

A política de valorização do piso acima da inflação, retomada em 2023, elevou a renda nominal. O problema é que o choque de preços dos alimentos durante a pandemia foi tão intenso que os ganhos salariais não conseguiram cobrir toda a defasagem acumulada. A cesta do Dieese reúne 13 itens essenciais — carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga — e seu custo subiu mais que a inflação geral.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor. O El Niño, fenômeno que altera o regime de chuvas, entrou no radar dos analistas como principal risco para a inflação de alimentos a partir do fim de 2026. Perdas na safra tendem a ser repassadas ao consumidor urbano, pressionando justamente os itens que compõem a cesta básica.

O que está em jogo na campanha

O custo da comida virou moeda eleitoral. A oposição explora o preço nas gôndolas para atacar a gestão atual; o governo rebate citando a queda do desemprego, o reajuste real do mínimo e a defesa do fim da escala 6×1. Para o cientista político José Niemeyer (Ibmec), o emprego pode se sobrepor à inflação na decisão do eleitor em 2026 — especialmente num cenário de medo sobre o impacto da tecnologia nas vagas de trabalho.

O Palácio do Planalto não comentou os dados até o fechamento desta reportagem.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se o poder de compra volta ao nível pré-pandemia: a trajetória do salário mínimo (que depende de regra fiscal e PIB), o comportamento do clima no campo (El Niño x La Niña) e a geração de postos formais com ganhos reais. Se o tempo fechar na agricultura, a conta no supermercado pode anular os avanços salariais antes mesmo de 2027 terminar. Para o empresário e o investidor, o sinal é claro: a inflação de alimentos segue como variável crítica de cenário macroeconômico e de risco político.