Economia

Crise na Espanha: aluguel devora 99% do salário jovem e déficit passa de 1 milhão

Manifestantes em Madrid seguram cartazes contra crise habitacional na Espanha
Milhares protestam nas ruas da Espanha após Parlamento rejeitar lei emergencial de habitação

A Espanha enfrenta o colapso habitacional mais severo da Europa ocidental: em cidades como Madrid e Barcelona, o aluguel médio consome 98,7% da renda de um jovem trabalhador. O estopim foi o despejo de uma idosa de 87 anos, mas a raiz do problema remonta a uma decisão tomada há duas décadas.

O Parlamento rejeitou na sexta-feira (2/10) a lei emergencial de habitação. No dia seguinte, milhares ocuparam as ruas em todo o país. A pergunta que fica: como um país que construía o dobro do necessário chegou a faltar quase um milhão de moradias?

O boom que virou fantasma

Entre 1997 e 2008, a Espanha ergueu cinco milhões de unidades — duas para cada lar formado. Crédito farto e especulação alimentaram uma bolha que estourou com a queda do Lehman Brothers. O setor da construção encolheu de 14 unidades por mil habitantes para apenas duas. A média europeia é quatro.

O resultado: um déficit atual de 750 mil residências, segundo o Banco da Espanha. Sem correção de rota, a projeção ultrapassa um milhão em dois anos. Hoje, o país entrega apenas 90 mil unidades por ano.

Por que a construção não reage?

Especialistas convergem: o setor foi “dizimado”. Empresas fecharam, mão de obra especializada se dispersou e a cadeia produtiva não se recompôs. A recuperação, se vier, será lenta — medida em anos, não meses.

Enquanto a oferta estagna, a demanda acelera. Desde 2021, formam-se 250 mil novos lares anuais, impulsionados sobretudo por imigrantes da Colômbia e Venezuela. Na bolha, construía-se o dobro dos lares; hoje, entrega-se um terço.

O abismo entre renda e moradia

Os números do INE expõem a violência da disparidade:

  • Preços de venda e aluguel: +80% desde 2015
  • Salários: +30% no mesmo período
  • Jovens de 26 a 34 anos morando com os pais: 47,3%
  • Famílias com dificuldade habitacional: 1 em cada 4 (FOESSA, 2024)

Em polos urbanos, o aluguel médio atinge R$ 7 mil mensais — praticamente a renda inteira de um jovem. O aluguel, porta de entrada obrigatória para quem chega a uma cidade, virou barreira intransponível.

Fundos abutres, Airbnb e o mito das casas vazias

O debate público aponta culpados: fundos de investimento (“abutres”) e aluguel de temporada. A realidade é mais matizada. Fundos detêm cerca de 5% do mercado — irrelevantes para ditar preços, segundo José García Montalvo (Universidade Pompeu Fabra). A maioria dos 2,4 milhões de senhorios são pequenos proprietários com uma ou duas unidades.

O turismo, porém, distorce a oferta. A Espanha recebeu 96,8 milhões de visitantes em 2025. Muitos proprietários preferem alugar por dias a turistas do que por meses a famílias. Em áreas turísticas, a pressão sobre o residencial é brutal.

E as 3,8 milhões de moradias vazias do INE? Estão em municípios esvaziados, sem empregos nem serviços. Não resolvem a crise nas metrópoles.

A estatística que esconde a exclusão

Despejos caíram de 39 mil (2021) para 24,5 mil (2025). Parece avanço. Para García Montalvo, é ilusão: “Quem aluga hoje? O nômade digital que ganha 6 mil euros de uma empresa suíça. Imigrantes, jovens e famílias monoparentais nem chegam a assinar contrato.”

O mercado se fragmenta: apartamentos inteiros viram aluguel por quarto. A pressão é tanta que a moradia deixa de ser unidade e vira “pedaço”.

O que observar daqui para frente

O governo anunciou suspensão de despejos até 2030 e prorrogação de contratos, mas a medida travou no Congresso. Três variáveis definirão o próximo ciclo: (1) velocidade de recuperação da construção civil, (2) regulação do aluguel turístico nas autonomias e (3) fluxo migratório líquido. Se a entrega anual não dobrar para 180 mil unidades, o déficit de um milhão deixa de ser projeção e vira realidade concreta — com reflexos diretos no consumo, na mobilidade laboral e na estabilidade social.