Economia

Você não vai acreditar no poder de compra real do salário em 2026

Gráfico mostra evolução do poder de compra do salário mínimo em cestas básicas de 2022 a 2026
Salário mínimo de 2026 compra 1,8 cesta básica em São Paulo, alta de 11,3% frente a 2022

O Brasil entra no ano eleitoral de 2026 com o poder de compra de alimentos superior ao de 2022, mas a recuperação total frente ao pré-pandemia não deve acontecer antes de 2028. O dado vem de um levantamento exclusivo da 4intelligence e expõe um abismo entre a melhora nominal dos rendimentos e a realidade do supermercado.

Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava 1,8 cesta básica paulistana (R$ 900,59). Parece evolução — e é: 11,3% a mais que as 1,62 cestas de agosto de 2022. Porém, o retrovisor mostra que a década anterior à Covid-19 (2010-2019) entregava média de 2,07 cestas. O pico histórico, de 2,28, ocorreu em março de 2012.

O impacto direto no bolso do consumidor e do investidor

A conta não fecha apenas para quem ganha o piso. Para a renda média do trabalho (R$ 3.777 no trimestre até agosto), o cenário repete o padrão: 4,07 cestas básicas hoje contra 4,82 na média pré-pandemia. São 15% de defasagem que explicam, em parte, a sensação de “carestia” mesmo com emprego em alta.

  • Salário mínimo: +11,3% vs 2022, mas -13% vs média 2010-2019.
  • Renda média: +15% vs 2022, mas -15% vs média 2010-2019.
  • Projeção: Recuperação total só após dezembro de 2027.

Por que a inflação de alimentos teima em não ceder

O economista Bruno Imaizumi aponta que o choque de preços pós-pandemia criou uma base de comparação elevada. Políticas de valorização do mínimo acima da inflação ajudaram, mas não compensaram a alta acumulada nos 13 itens da cesta Dieese — carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga.

Mas o efeito mais relevante aparece no horizonte climático. O El Niño, previsto para o final de 2026, altera o regime de chuvas e ameaça a safra. Perdas no campo tendem a repassar para as gôndolas justamente no início do próximo mandato presidencial.

O que as campanhas não mostram nos palanques

O custo da cesta virou arma eleitoral. De um lado, a oposição associa os preços atuais à gestão federal. Do outro, o governo rebate citando a alta do arroz e feijão na gestão anterior e a desoneração de itens de luxo (jet skis, jatinhos) em detrimento da cadeia de combustíveis e alimentos.

Para o cientista político José Niemeyer (Ibmec), porém, a variável decisiva em 2026 pode ser outra: o emprego. “Há um receio real da tecnologia tirar postos de trabalho. Ter uma ocupação, por mais simples, virou ativo de proteção social”, afirma. O mercado de trabalho aquecido pode sobrepor a insatisfação com o carrinho de supermercado.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o ritmo da recuperação real: a trajetória do salário mínimo (regra de valorização vigente), o comportamento do El Niño sobre a safra 2026/27 e a produtividade da renda média. Se o clima colaborar e o emprego formal seguir expandindo, a linha de 2 cestas por salário mínimo pode ser reatacada em 2028. Até lá, o consumidor segue pagando a conta da pandemia no caixa do mercado.