O brasileiro chega às urnas de 2026 com o salário comprando mais comida do que em 2022, mas ainda longe do que conseguia antes da pandemia. A diferença? Ninguém recupera o prejuízo acumulado antes de 2027 — se o clima colaborar.
Um levantamento da consultoria 4intelligence expõe o retrato exato: o poder de compra de alimentos subiu, mas estacionou num patamar 13% inferior à média da década anterior ao coronavírus. O detalhe que muda tudo está nas projeções climáticas para os próximos meses.
O que o salário mínimo compra hoje — e o que comprava ontem
Em agosto de 2026, o piso nacional de R$ 1.621 adquiria 1,8 cesta básica paulistana (cotada a R$ 900,59 pelo Dieese). Em 2022, o mesmo cálculo fechava em 1,62 cesta. A alta é de 11,3% — um alívio real, inegável.
Mas o retrovisor mostra outra história. Entre 2010 e 2019, a média era de 2,07 cestas. O pico histórico, registrado em março de 2012, chegou a 2,28. Ou seja: mesmo com reajustes acima da inflação a partir de 2023, o trabalhador mínimo ainda perde 13% de capacidade de compra frente ao “normal” pré-pandemia.
Renda média: o mesmo filme, outro elenco
Quem ganha acima do piso não escapa da conta. No trimestre até agosto, a renda habitual de R$ 3.777 comprava 4,07 cestas (preço médio de R$ 927,02). Em 2022, eram 3,54 — salto de 15%.
A média 2010-2019, porém, era 4,82. O buraco persiste: 15% abaixo do parâmetro anterior à crise sanitária. A recuperação dos empregos e salários não compensou integralmente a disparada dos alimentos no mesmo período.
- Cesta básica Dieese: 13 itens (carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo, manteiga)
- Referência de preço: cidade de São Paulo (não há média nacional oficial)
- Fonte dos rendimentos: IBGE (PNAD Contínua)
O fantasma do El Niño no horizonte
As projeções de Bruno Imaizumi indicam que o poder de compra segue abaixo do pré-pandemia pelo menos até dezembro de 2027. O risco novo tem nome: El Niño.
O fenômeno altera o regime de chuvas a partir do fim de 2026. Perdas na safra pressionam custos de produção e, em cascata, o preço na gôndola. Para o consumidor urbano, significa que a melhora lenta dos últimos dois anos pode estancar — ou até recuar.
Mas o efeito mais relevante aparece no bolso de quem vota.
Eleição, narrativa e a conta do supermercado
O custo da comida virou peça central na campanha. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associa a inflação alimentar à gestão federal em vídeos nas redes. A resposta do Palácio do Planalto cita a alta do arroz e feijão no governo anterior, além da desoneração de “jet ski e jatinho” e a entrega de refino a estrangeiros.
Para o cientista político José Niemeyer (Ibmec), três variáveis pesam: emprego, inflação e poder de compra. Em 2026, o mercado de trabalho aquecido — com queda do desemprego desde 2023 — pode sobrepor-se à insatisfação com a cesta básica. “Ter ocupação, por mais simples, parece redentor”, resume.
O que observar daqui pra frente
Três sinais ditam o próximo capítulo: a intensidade do El Niño no campo, a trajetória do salário real (com ou sem ganho acima do IPCA) e a velocidade de transmissão de eventuais choques de oferta para o varejo. Se o clima poupar as lavouras, a curva lenta de recuperação continua. Se não, o eleitor de 2026 sentirá no bolso antes de 2027 terminar.
