Economia

Disputa de R$ 4 bi pelo diesel russo expõe bastidores do mercado de combustíveis no Brasil

Navio tanque no mar com bandeira russa simbolizando importação de diesel para o Brasil
Disputa bilionária expõe bastidores da importação de diesel russo sob sanções ocidentais.

Uma batalha judicial que envolve quase R$ 4 bilhões está revelando como o mercado brasileiro de diesel importado operou nas sombras das sanções ocidentais à Rússia. No centro do conflito, uma joint venture desfeita em meses deixa rastros de acusações de concorrência desleal, apropriação de carga e uso de frota fantasma.

O desfecho pode ditar regras para futuras importações de combustível e expõe a fragilidade de contratos firmados em ambiente de guerra comercial.

Como o diesel russo dominou o abastecimento nacional

Desde dezembro de 2022, quando a União Europeia vetou petróleo e derivados russos, Moscou redirecionou volumes recordes para compradores alternativos. O Brasil tornou-se destino prioritário: em abril de 2024, 90% do diesel importado pelo país tinha origem russa.

O governo federal estima que cerca de R$ 99 bilhões em diesel russo tenham entrado no território nacional no período, em valores corrigidos. A operação era legal — o Brasil não aderiu às sanções —, mas dependia de uma logística complexa, com navios sob restrições ocidentais e intermediários sediados em paraísos fiscais.

A ascensão e queda da Coral Energy

A trama girou em torno da Coral Energy, baseada em Dubai e com raízes no Azerbaijão. A empresa chegou a controlar aproximadamente 80% das vendas de diesel russo ao Brasil por meio de subsidiárias. No fim de 2023, a UE sancionou o grupo por burlar o teto de preço do petróleo russo.

A reação foi imediata: mudança de nome para 2Rivers, desmonte de operações e abandono de clientes brasileiros. Paralelamente, o Kremlin impôs veto às exportações em junho de 2024, zerando o fluxo em agosto. Os EUA ocuparam o vácuo, com 74% do mercado naquele mês.

O rompimento que virou guerra judicial

No início de 2024, a Coral firmou parceria com a Dia 33, grupo brasileiro controlado pelo russo Igor Soglaev. A joint venture previa divisão dos lucros, mas durou poucos meses. A Dia 33 acusa a sócia de:

  • Cooptar executivos-chave com carteira de clientes e infraestrutura;
  • Praticar dumping para afastar compradores;
  • Promover campanha de difamação contra a marca.

A 3ª Vara Empresarial de São Paulo viu indícios de concorrência desleal e limitou atuações ligadas à Coral. A Dia 33 pede R$ 138 milhões de indenização na Justiça paulista, onde corre inquérito policial.

O contra-ataque e a arbitragem em Dubai

A Coral/2Rivers revidou no Paraná, alegando apropriação indébita de uma carga de diesel e pedindo bloqueio de R$ 133 milhões da rival — liminar negada. A Dia 33 contabiliza prejuízos de até R$ 800 milhões entre dívidas trabalhistas e estocagem, tendo pedido de recuperação judicial indeferido em julho.

A frente principal está no Centro Internacional de Arbitragem de Dubai: a Dia 33 cobra US$ 703 milhões (R$ 3,7 bilhões). Em meados de 2024, a corte determinou arresto de bens dos acusados, medida replicada em Hong Kong.

O que observar daqui para frente

A dissolução da 2Rivers e a exposição internacional dos sócios dificultam a execução de eventuais decisões favoráveis à Dia 33. Enquanto isso, o diesel russo segue no radar de outras investigações no Brasil — da fraude tributária do Grupo Refit ao uso de empresas de fachada pelo PCC na revenda em postos.

Para o setor, o caso sinaliza que contratos firmados sob sanções unilaterais carregam risco jurídico elevado. A recomposição do abastecimento com origem americana reduz a dependência imediata, mas não elimina a incerteza regulatória. Empresas que operam nesse corredor precisam blindar governança societária e due diligence de contrapartes — ou o próximo litígio pode ser ainda maior.