Nos três primeiros anos do governo Lula, o investimento privado em infraestrutura já supera em 11% todo o quadriênio anterior. Se as projeções para 2026 se confirmarem, a diferença salta para 53%. A explicação, porém, vai muito além da disputa política.
Os números que invertem a lógica do debate
Dados da Abdib (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base) mostram que os aportes privados somaram R$ 618 bilhões entre 2023 e 2025. No mandato de Jair Bolsonaro (2019-2022), o total foi de R$ 556,7 bilhões.
Quando se soma o dinheiro público, a disparada é ainda maior: R$ 1,1 trilhão contra R$ 714,2 bilhões, uma alta de 52,2% em valores corrigidos pela inflação. Curiosamente, a fatia do setor privado no bolo total quase não mudou: manteve-se estável em torno de 78% nos dois períodos.
Por que o mandato anterior travou?
A pandemia congelou canteiros a partir do segundo semestre de 2020. A quebra nas cadeias de suprimentos disparou o preço do aço, cimento e asfalto, tornando contratos assinados anteriormente economicamente inviáveis.
O choque foi amplificado pelo ciclo de alta da Selic, que saltou de 2% para 13,75% ao ano. O crédito caro paralisou decisões de investimento que só foram retomadas nos últimos ciclos de queda da taxa básica.
Havia ainda um fator geopolítico. A instabilidade política, atritos diplomáticos e o avanço do desmatamento acenderam alertas ESG. Fundos soberanos europeus e investidores estrangeiros recuaram, assustados com a governança socioambiental e o alinhamento automático a agendas que ignoravam a transição energética.
O motor silencioso: contratos maduros e leilões recordes
A virada de chave em 2023 não nasceu do zero. Dois pilares sustentam o boom atual:
- Maturação regulatória: Leilões de saneamento realizados em 2021 e 2022, sob o novo marco legal, entraram na fase pesada de obras físicas justamente no mandato atual, gerando desembolsos massivos.
- Gestão pragmática: O ex-ministro dos Transportes Renan Filho montou equipe técnica, rodou o mundo vendendo o programa e bateu recorde histórico de leilões em 2025.
Especialistas concordam: a restrição fiscal empurra qualquer governo — de direita ou esquerda — para Parcerias Público-Privadas (PPPs) e concessões. Não há espaço no orçamento público para outra saída.
Setores que explodiram e o único que recuou
A radiografia setorial revela onde o dinheiro realmente aterrizou nos três primeiros anos de cada gestão:
- Saneamento Básico: Salto de 418% (R$ 9,9 bi para R$ 49,6 bi). Projeção total com Lula: R$ 77,2 bilhões.
- Energia Elétrica: Alta de 73,3% (R$ 196,1 bi para R$ 339,8 bi). O acumulado de três anos já supera os quatro anos do governo anterior (R$ 280,2 bi).
- Transporte e Logística: Crescimento de 90,7% na comparação trienal (R$ 62,2 bi para R$ 118,6 bi). Projetado R$ 161,9 bi até 2026.
- Telecomunicações: Queda de 13,8% (R$ 127,9 bi para R$ 110,2 bi). Reflexo natural do fim do ciclo pesado de implantação do 5G nas capitais, concluído em 2022.
O abismo que ainda separa o Brasil do ideal
Apesar dos recordes, o país investe apenas 2,3% do PIB ao ano em infraestrutura. O setor calcula que o mínimo necessário é 4% a 4,5% do PIB por uma década seguida — algo em torno de R$ 507 bilhões anuais — apenas para estancar o déficit histórico.
A conta não fecha com dinheiro público. A equação depende inteiramente da segurança jurídica para atrair capital privado de longo prazo, seja em debêntures incentivadas, fundos de investimento ou equity estrangeiro.
O que observar daqui para a frente
O ano de 2026 será o teste de estresse. A confirmação dos R$ 300 bilhões projetados para o último ano do mandato depende da estabilidade macroeconômica, da continuidade da agenda de leilões e da capacidade de execução das concessionárias em um ano eleitoral. O gargalo mudou: não é mais a falta de projetos, mas a velocidade de transformar contratos assinados em obras entregues.
