Economia

2030 já começou: o vácuo de poder que o mercado não vê

Cartazes gerados por IA mostram Flávio Dino e Tarcísio de Freitas como rivais na eleição presidencial de 2030
Inteligência artificial antecipa disputa presidencial de 2030 entre ministro do STF e governador de SP.

Na véspera do primeiro turno de 2026, as redes sociais já exibiam cartazes gerados por inteligência artificial colocando Flávio Dino, ministro do STF, contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, na disputa presidencial de 2030. A corrida pelo Planalto começou antes da hora, e o establishment político-econômico ainda não assimilou o que isso significa.

Os próximos anos prometem dificuldades econômicas severas. Dependendo do desfecho de 2026, o cenário pode descambar para uma angústia política inédita, com as condições democráticas da eleição de 2030 em aberto — entre a degradação gradual e o colapso institucional.

O xadrez das candidaturas invisíveis

Luiz Inácio Lula da Silva não estará na cédula em 2030. No campo da direita, mesmo que o bolsonarismo defina seu candidato natural, não há garantia de que Tarcísio ou equivalente consiga viabilizar-se. À esquerda, a hipótese de o PT lançar alguém fora de sua órbita histórica parece, hoje, improvável.

Desde 2002, o PT funciona como eixo gravitacional do sistema partidário. A outra força maior sempre se definiu por oposição a ele — o antipetismo em suas múltiplas versões. Desde 1994, o partido se confundiu progressivamente com o lulismo e a figura única de Lula. Lideranças alternativas escasseiam há décadas.

O colapso das bases sociais tradicionais

As forças organizadas que sustentaram o PT enfraqueceram ou desapareceram:

  • Sindicatos industriais, bancários, de estatais e do serviço público perderam densidade;
  • Movimentos sociais de base — que brigavam por posto de saúde, iluminação, transporte, água, moradia e terra, inclusive na rica São Paulo — rarearam.

Do lado tucano, o quadro é similar. As elites ilustradas, a tecnocracia acadêmica e os setores modernos do empresariado que deram musculatura ao PSDB entre 1994 e 2014 evaporaram junto com o partido. PT e PSDB foram filhos de um projeto de desenvolvimento centrado em São Paulo (1950-1990) que não se completou e morreu.

Quem ocupa o vácuo: as novas forças reais

Enquanto as velhas coalizões se dissolvem, outras nascidas nas margens do país ganharam força e articulação a partir dos anos 1970:

  • Evangelismo: expandiu-se nas periferias, tornando-se ator político decisivo;
  • Agronegócio: nasceu na marcha para o Oeste, consolidou-se com pesquisa pública e financiamento estatal, explodiu com a demanda chinesa;
  • Forças de segurança: policiais, militares e agentes privados tornaram-se força política organizada em um país marcado pela precariedade e violência.

Esses grupos não são marginais — são o novo centro de gravidade do poder real.

Uma oposição fragmentada e uma classe média travada

Organizações de mulheres, negros, indígenas e demais grupos oprimidos não lograram formar grande coalizão política; encontram representação pontual no PT envelhecido ou em legendas nanicas. A “Grande Insatisfeita” — a nova classe média expandida nos anos petistas — vê-se paralisada por crescimento medíocre e educação ruim. Revolta-se, mas de forma inorgânica: vota “contra o que está aí”, majoritariamente contra o PT.

O eleitorado pobre, beneficiário de programas sociais, vota em Lula, mas não no PT. Também está desarticulado.

O empresariado que não investe no futuro

O “empresariado” dominante hoje divide-se entre:

  • Controladores de grandes grupos via estrutura financeira;
  • Atuantes em serviços e comércio.

Não há motor de desenvolvimento via novo padrão de investimento ou projeto produtivo. A agenda resume-se a pagar menos impostos e capturar subsídios estatais. O restante é um imenso Centrão — o partido do extrativismo estatal puro.

O que observar daqui para frente

O mapa político que emerge é sumário e precário, mas indica uma ausência crítica: não há forças sociais organizadas capazes de dar carne e osso a um projeto político que não seja reacionário ou extrativista. Política e movimento social não se confundem, mas renovação política sem novas coalizões sociais é improvável.

Para o investidor e o empresário, o sinal é claro: a instabilidade institucional não é um risco residual — é o cenário base. A disputa de 2030 será jogada em um tabuleiro onde as peças tradicionais desapareceram e as novas ainda não têm regras claras. Acompanhar a reorganização (ou a falência) das bases sociais de cada polo será mais decisivo do que qualquer pesquisa de intenção de voto.