A liquidação do Banco Master rastreou o rastro de um Gulfstream G700 avaliado em US$ 79,5 milhões — cerca de R$ 414 milhões — que mudou de mãos quatro vezes após a prisão de Daniel Vorcaro. O dinheiro, porém, não voltou para o caixa da instituição.
O avião, fabricado em 2023 e entregue ao banqueiro em dezembro daquele ano, foi vendido em março de 2024 para uma offshore nas Ilhas Cayman. Dias depois, passou para outra empresa no mesmo paraíso fiscal. A terceira transação ocorreu em maio, rumo a um comprador nos Estados Unidos. A quarta e última, em junho, levou a aeronave para o registro de uma companhia sediada em Delaware.
O rastro do dinheiro que não aparece
A EFB Regimes Especiais, liquidante nomeada pelo Banco Central, identificou que os recursos da venda inicial saíram do caixa do Master para quitar a fatura da Gulfstream Aerospace. O valor entrou na contabilidade da instituição como “crédito a receber” de Vorcaro, mas o banqueiro nunca pagou.
Quando a aeronave foi revendida, o dinheiro não retornou ao banco. Documentos obtidos pela liquidação mostram que os valores circularam entre contas de offshores ligadas ao próprio Vorcaro e a terceiros ainda não identificados. A suspeita dos administradores é de que a cadeia de vendas tenha sido desenhada para dificultar o rastreamento e a recuperação dos ativos.
Como a operação foi montada
- Dez/2023: Entrega do G700 a Vorcaro; pagamento feito com recursos do Banco Master.
- Mar/2024: Primeira venda para offshore nas Cayman (US$ 78 mi).
- Mar/2024: Segunda venda, dias depois, para outra offshore nas Cayman.
- Mai/2024: Terceira venda para comprador nos EUA.
- Jun/2024: Quarta venda para empresa em Delaware — registro atual da aeronave.
Entre a primeira e a última transação, o preço caiu cerca de US$ 1,5 milhão. Para a liquidação, a desvalorização rápida em tão pouco tempo reforça a tese de que o objetivo não era maximizar o valor, mas mover o ativo para fora do alcance da justiça brasileira.
O que a liquidação pode fazer agora
A EFB já pediu à Justiça o bloqueio preventivo de eventuais saldos remanescentes nas contas das offshores envolvidas. Também solicitou cooperação internacional para acessar extratos bancários nas Ilhas Cayman e nos EUA — processo que costuma levar meses.
Paralelamente, a liquidação avalia entrar com ação de responsabilidade civil contra Vorcaro e eventuais beneficiários finais das transferências. O argumento central: o banco financiou a compra, o ativo foi alienado em cadeia e o prejuízo ficou integralmente com os credores do Master.
Por que o caso preocupa o mercado
O Banco Master tinha R$ 3,2 bilhões em ativos totais em dezembro de 2023. A exposição direta a Vorcaro e empresas ligadas a ele supera R$ 1,1 bilhão, segundo o relatório da liquidante. A recuperação do valor do jato — ou a comprovação de desvio — pode alterar significativamente o rateio entre credores quirografários e subordinados.
Além disso, o caso expõe falhas nos controles internos que permitiram a liberação de recursos para aquisição de bem de uso pessoal do controlador, sem garantias reais nem aprovação do comitê de risco.
O que observar daqui para frente
A próxima audiência de instrução sobre o bloqueio internacional está marcada para agosto. Se a Justiça deferir a quebra de sigilo bancário nas offshores, o fluxo completo dos US$ 78 milhões pode ser mapeado. Investidores e credores do Master devem monitorar também eventual leilão da aeronave — hoje registrada em Delaware — que, se concretizado, traria recursos diretos à massa falida. Enquanto isso, o G700 segue voando sob matrícula norte-americana, longe do radar da liquidação brasileira.
