A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou nesta sexta-feira (2) o início dos testes da primeira bateria de grande porte integrada a uma usina fotovoltaica no país. O sistema, de 1,25 MW e 5,016 MWh, está instalado na UFV Sol de Brotas 7, da Statkraft, em Uibaí (BA).
Até então, nenhum projeto havia recebido aval regulatório para operar armazenamento colocalizado — ou seja, compartilhando conexão, medição e faturamento com a geração solar. A liberação abre precedente para dezenas de empreendimentos que aguardam sinal verde.
Por que a configuração “colocalizada” muda o jogo
Na prática, a bateria pode carregar tanto com a energia excedente dos painéis quanto com eletricidade da rede nos horários de menor preço. Isso permite à usina entregar energia nos picos de demanda — quando o valor no mercado livre e no PLD sobe — sem depender exclusivamente da radiação solar.
O equipamento usa tecnologia de íon-lítio e foi dimensionado para quatro horas de descarga contínua na potência nominal. A Aneel enquadrou o ativo como Sistema de Armazenamento de Energia (SAE) de geração, o que simplifica a outorga e evita a necessidade de registro separado como consumidor e gerador.
Números do complexo Sol de Brotas
- Sol de Brotas 7: 32,5 MW solares + 1,25 MW / 5,016 MWh de bateria (teste autorizado)
- Sol de Brotas 5: 32,5 MW — operação comercial liberada
- Sol de Brotas 16: 25,8 MW — operação em teste liberada
- Complexo total (4 usinas): 130 MW já com outorga comercial
A Statkraft torna-se, assim, a primeira geradora a operar hibridização solar + armazenamento em escala de utilidade no Brasil. O movimento antecipa a regra que deve valer para os leilões de reserva de capacidade (LRCap) de dezembro, nos quais baterias terão papel central.
O que o mercado já precifica para dezembro
Segundo a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), a margem de conexão disponível no SIN para os certames de baterias chega a 56 GW — até 12,5 vezes o volume contratado no leilão anterior. A conta considera a nota técnica mais recente do ONS.
Além da receita fixa de 15 anos do LRCap, desenvolvedores estão embutindo nos lances a redução de curtailment (corte de geração por congestão) em parques solares e eólicos já existentes. A Clean Energy Latin America (Cela) estima que esse ganho operacional pode representar 15 a 25 % da receita total de projetos híbridos.
Outras liberações da mesma pauta
A diretoria da Aneel aproveitou a reunião para destravar mais 44,6 MW em usinas solares de menor porte:
- UFV Jusante 4 (Cemig) — 10 MW — São Gonçalo do Abaeté (MG)
- UFV Copal Alimentos — 741 kW — São José (SC)
- UFV APE RJC — 600 kW — Campo Novo do Parecis (MT)
No lado hidrelétrico, a UHE Pedro Affonso Junqueira (DME Energética) teve duas unidades restabelecidas: UG01 (1,32 MW) e UG07 (4 MW), somando 5,32 MW de volta à operação comercial após paralisações por corrosão em conduto forçado e anomalia em transformador, respectivamente.
O que observar nas próximas semanas
O teste da bateria em Sol de Brotas 7 será monitorado de perto pelo ONS e pela CCEE para validar parâmetros de despacho, eficiência de ciclo completo e integração ao sistema de medição unificado. Se os resultados confirmarem a viabilidade técnica e econômica, a tendência é que a Aneel acelere a análise dos demais pedidos de hibridização — hoje na casa de 20 processos protocolados.
Para investidores e gestores de portfólio, o sinal é claro: a barreira regulatória para armazenamento acoplado caiu. Quem tiver projetos maduros e conexão garantida largará na frente na captação de receitas de capacidade e arbitragem de preço já no primeiro semestre de 2025.
