O Brasil tem em mãos a chance de ditar as regras do jogo na transição energética global, mas a janela para assumir esse protagonismo exige mais do que potencial natural — demanda decisão política imediata. Especialistas reunidos em São Paulo desenham um cenário onde o país deixa de ser apenas exportador de commodites para se tornar referência em segurança energética.
O termo “Opep da energia verde”, cunhado por Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, resume a ambição: transformar a capacidade ociosa de 7 bilhões de litros de biodiesel em influência geopolítica real.
O dinheiro já está na mesa
Não se trata de projeção distante. A Lei do Combustível do Futuro, novo marco regulatório do setor, já tem R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados, segundo o deputado Arnaldo Jardim, presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara. O sinal do mercado é claro: a regulação destravará capital privado em escala.
Mas Hammerschmidt alerta: biocombustível precisa ser tratado como política de Estado, não como obrigação regulatória. “O Brasil precisa garantir a soberania da sua matriz energética, não pode depender de produto importado”, afirmou durante o Global Agribusiness Festival.
Por que antecipar o B20 agora faz sentido
A mistura de 20% de biodiesel no diesel (B20) está prevista para 2030. A indústria pede antecipação emergencial. Três fatos sustentam a urgência:
- Falta de diesel já é realidade em regiões do país
- Parte do parque de refino da Rússia foi destruída — recuperação incerta enquanto a guerra continuar
- EUA podem restringir exportações de combustível, segundo Plinio Nastari, presidente da DATAGRO
A capacidade instalada das 60 usinas brasileiras — 17 bilhões de litros/ano — permite absorver a demanda adicional sem novos aportes em infraestrutura.
Transição é adição, não substituição
Mário Campos, presidente da SIAMIG Bioenergia, reformulou o diagnóstico: o consumo global de energia vai crescer com a população projetada para 10 bilhões em 2050. Não há espaço para “trocar” fontes; é preciso adicionar renováveis ao mix existente.
Isso abre três frentes estratégicas onde o Brasil já tem vantagem competitiva:
- SAF (Combustível de Aviação Sustentável) — mercado em formação com mandato internacional
- Substituição do bunker marítimo por derivados do etanol
- Biometano para transporte terrestre pesado
A carta na manga: independência da China
Hoje, 1/3 da matriz energética brasileira vem de bioenergia. Campos destacou que isso permite ao país fazer a transição “sem depender da China”, que domina cadeias de solar, eólico, baterias e minerais críticos. É uma soberania que poucos países possuem.
Roberto Ardenghy, presidente do IBP, completou o quadro ao defender o conceito de “evolução energética”. A Petrobras, por exemplo, já evitou a emissão de 88 milhões de toneladas de CO2 desde 2006 via reinjeção em reservatórios do pré-sal. Petróleo e bioenergia não são inimigos — são peças do mesmo tabuleiro.
O que observar daqui para frente
A definição do cronograma do B20 será o primeiro teste real da disposição política. Se o governo antecipar a mistura, sinaliza ao mercado que a “Opep verde” sai do discurso para a prática. Simultaneamente, a regulamentação do SAF e do mercado de carbono definirá a velocidade dos R$ 289 bilhões prometidos.
Para o investidor e o empresário, a métrica a acompanhar não é apenas volume de produção, mas taxa de utilização da capacidade ociosa. Cada ponto percentual a mais nas usinas existentes é retorno imediato sobre ativo já pago — e redução concreta de importação de diesel.
