Três candidatos disputam o governo do Paraná com propostas radicalmente opostas para a maior estatal do estado, a rede hospitalar e o modelo de segurança pública. O resultado define não só o rumo político, mas o ambiente de negócios para os próximos quatro anos. O que ninguém explica é como cada promessa chega ao bolso do contribuinte e do investidor.
O tabuleiro: três nomes, dois modelos opostos
Requião Filho (PDT), Sandro Alex (PSD) e Sergio Moro (PL) lideram as intenções de voto na última pesquisa Quaest. O pedetista apoia Lula e ataca a gestão atual. O psdista carrega a bandeira da continuidade de Ratinho Junior, que tem alta aprovação. O ex-juiz se vende como o “verdadeiro representante da direita” e usa o legado da Lava Jato como trunfo. A campanha começou em 16 de agosto e termina neste domingo (4), com o único debate na RPC servindo de palco para os confrontos mais duros.
Copel: o ativo que divide as campanhas
A privatização da Companhia Paranaense de Energia, concluída em 2023, virou o símbolo da disputa. Requião Filho promete reverter o processo — ainda que não detalhe o mecanismo jurídico ou o custo bilionário da recompra. Sandro Alex evita criticar a venda, mas propõe criar uma Secretaria Estadual de Energia e levar rede trifásica ao campo, o que exige investimentos pesados em transmissão. Moro defende a privatização, mas quer cobrar planos de investimento da nova controladora e exigir reparação por quedas de energia. Para o setor produtivo, a incerteza regulatória é o maior risco.
- Requião: reversão da privatização + fiscalização dura dos serviços
- Sandro: nova secretaria + universalização trifásica no interior
- Moro: manutenção do modelo privado + cobrança de resultados via agência
Saúde: filas, hospitais e a conta que alguém vai pagar
Sandro Alex promete entregar mais de 100 obras hospitalares em andamento e realizar mil cirurgias por ano via programa “Opera Paraná”. Moro propõe a “Tabela SUS Paranaense”, complementando valores federais com dinheiro do tesouro estadual — modelo inspirado em São Paulo. Requião aposta em parcerias com santas casas e hospitais filantrópicos para criar referências regionais de média e alta complexidade. Nenhum dos três detalha a fonte de receita permanente para sustentar a expansão. O endividamento do estado e a dependência de repasses federais tornam as promessas sensíveis a cenários fiscais adversos.
Educação e segurança: expansão vs. reversão
O modelo cívico-militar expõe a fratura ideológica. Sandro quer saltar para 500 unidades e disseminar escolas bilíngues — a primeira em Piraquara. Requião promete extinguir o formato militar, mantendo as escolas sob gestão civil. Moro foca na segurança dura: presídio de segurança máxima sem visita íntima (“Cárcere Duro”), concurso para 2 mil policiais (mil por ano) e Agência Estadual de Combate à Corrupção com diretoria de mandato fixo. A plataforma digital de fiscalização de pedágios e obras, proposta por Moro, replica o Observatório da Fiep e atende a uma demanda antiga do setor logístico.
O mapa das agendas: onde cada um apostou fichas
A geografia da campanha revela prioridades eleitorais. Sandro Alex rodou cerca de 80 municípios, com peso no Oeste e Norte — bases do agronegócio e da indústria. Requião Filho visitou mais de 30 cidades, cobrindo todas as regiões, mas concentrou forças na Região Metropolitana de Curitiba. Moro passou 28 dias na capital, cinco em Maringá (sua terra natal), três em Ponta Grossa e dois em Guarapuava. A estratégia sugere: Sandro busca capilaridade no interior, Requião tenta consolidar o eleitorado urbano progressista, Moro aposta na força da máquina bolsonarista na capital e no Noroeste.
O que observar daqui pra frente
O próximo governador herdará contratos de concessão rodoviária em vigor, a Copel sob controle privado e uma rede hospitalar com obras paralisadas ou subfinanciadas. Três variáveis decidirão a execução das promessas: a composição da Assembleia Legislativa (sem maioria própria, qualquer governador precisará negociar), o cenário fiscal federal (repasses do FPE e emendas) e a disposição do setor privado para parcerias em energia e saúde. Para quem investe ou empreende no Paraná, o sinal claro está na regulação da Copel e na previsibilidade dos editais de infraestrutura — o resto é discurso de palanque.
