Bancos, seguradoras e FIDCs têm até o dia 30 para entregar ao Ministério da Fazenda as carteiras de crédito podre que entrarão no novo Desenrola. A União comprará esses ativos com desconto mínimo de 90%, mas o leilão previsto para novembro pode elevar esse corte a patamares históricos.
O programa mira R$ 90 bilhões em dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal. Para o investidor e o empresário, a dúvida central é: quanto o Tesouro vai gastar de fato e quem fica com o prejuízo final?
O prazo que define os jogadores da rodada
A manifestação de interesse aberta esta semana é a porta de entrada obrigatória. Quem não protocolar a carteira até o dia 30 fica de fora do leilão — não há segunda chamada. O edital exige que as dívidas tenham entre dois e quatro anos e meio de atraso e valor original abaixo de R$ 10 mil.
Estão na mira nesta fase:
- Cartão de crédito rotativo e parcelado;
- Cheque especial;
- Crédito pessoal não consignado para pessoa física;
- Crédito sem garantia real para MEI.
A escolha por começar no crédito bancário não é aleatória: essas operações respondem pela fatia mais pesada do endividamento das famílias e já possuem mercado secundário maduro para precificação.
Como o leilão inverte a lógica do desconto
O piso de 90% de desconto está na medida provisória, mas o governo não pretende pagar esse teto. A estratégia é criar competição por um orçamento limitado de R$ 15 bilhões (vigentes até junho de 2028), forçando os credores a oferecerem descontos maiores — 95%, 96% ou até 97% — para garantir a venda.
Na conta do secretário-executivo Rogério Ceron, se os R$ 90 bilhões estimados forem ofertados, o custo máximo da União seria de R$ 9 bilhões. O ministro Dario Durigan, porém, já avisou: o edital pode exigir descontos iniciais acima de 93%, e a dinâmica do leilão deve comprimir ainda mais o preço de compra.
O cronograma real: dinheiro só entra em 2027
Há um descompasso importante entre a assinatura e o caixa. O leilão ocorre entre o fim de novembro e o início de dezembro, mas a liquidação financeira — a transferência dos recursos do Tesouro para as instituições — está prevista apenas para 2027.
Isso significa que o alívio imediato no balanço dos bancos será contábil (baixa de ativos de difícil realização), não de caixa. Para o devedor, a renegociação com a União virá depois que o governo assumir a titularidade dos créditos.
O que observar daqui para frente
Acompanhe a divulgação do edital final: o percentual de desconto obrigatório na largada ditará a adesão dos grandes bancos. Outro ponto crítico é a definição dos critérios de “recorte” das carteiras — o governo comprará os lotes mais baratos ou priorizará volume de devedores atingidos? A resposta molda o impacto real no crédito ao consumidor e na provisão dos balanços bancários nos próximos trimestres.
