Economia

Keeta desembarca em 21 cidades: o mapa secreto da guerra do delivery no Brasil

A gigante chinesa Meituan confirmou a expansão do seu aplicativo Keeta para 21 municípios brasileiros até o fim de 2026, com Três Lagoas (MS) como único representante do estado na lista inicial. A movimentação redefine o tabuleiro do delivery nacional e sinaliza uma aposta agressiva no interior do país.

O que torna essa expansão diferente das tentativas anteriores de concorrentes do iFood? A resposta passa por uma vitória judicial estratégica e um orçamento bilionário que mal começou a ser gasto.

O gatilho judicial que destravou o jogo

Até semanas atrás, a entrada da Keeta nessas praças estava travada. Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) derrubou cláusulas de exclusividade da 99Food que impediam restaurantes de operar com a concorrente chinesa. A sentença tem validade nacional e removeu a principal barreira contratual do setor.

Segundo o vice-presidente da Keeta no Brasil, Danilo Mansano, a infraestrutura para operar nas 21 cidades já estava pronta. “Esse é só o início do que a gente se propõe a fazer aqui no Brasil, de ser uma plataforma efetivamente nacional”, declarou ao Estadão.

Por que Três Lagoas e o interior importam

A escolha não é aleatória. Três Lagoas, terceira maior cidade de Mato Grosso do Sul e conhecida como “Capital Mundial da Celulose”, representa o perfil que a Keeta quer testar: municípios médios com forte geração de renda, muitas vezes atrelados ao agronegócio.

A lógica é clara: esses mercados permitem validar cozinhas regionais, hábitos de consumo e desafios logísticos distintos dos grandes centros antes de escalar a operação.

O mapa das 21 cidades confirmadas

  • Mato Grosso (8 cidades): Sinop, Sorriso, Rondonópolis, entre outras
  • Goiás: Rio Verde
  • Paraná: Toledo
  • Mato Grosso do Sul: Três Lagoas
  • Demais municípios distribuídos em estados do Centro-Oeste e Sul

Parte dessas praças, como Sinop e Sorriso, já recebia testes em caráter piloto. A diferença agora é a autorização jurídica para operar em larga escala.

R$ 5,6 bilhões em cinco anos: o tamanho da aposta

O plano de investimento da Meituan para o Brasil prevê R$ 5,6 bilhões até 2029. Mansano revelou que menos de 20% desse montante foi deployado até o momento. Isso significa que mais de R$ 4,4 bilhões ainda estão no caixa para aquisição de restaurantes, logística, marketing e subsídios ao consumidor.

Para efeito de comparação: o iFood, líder absoluto, opera em mais de 1.200 cidades. A Keeta mira um caminho diferente — profundidade em menos praças, mas com densidade de capital e tecnologia de IA para roteirização de entregas.

O que muda para donos de restaurante e consumidores

No curto prazo, a chegada de um terceiro player forte (além de iFood e Rappi) pressiona comissões e amplia poder de barganha dos estabelecimentos. A decisão do TJSP já cria precedente: cláusulas de exclusividade que travem multiparceria tendem a cair.

Para o consumidor final, a promessa é de entregas mais rápidas via inteligência artificial e, provavelmente, campanhas agressivas de cupons e frete grátis na fase de aquisição.

O que observar nos próximos 12 meses

Três variáveis vão ditar se a Keeta vira caso sério ou mais uma tentativa frustrada: velocidade de onboarding de restaurantes nas 21 cidades, capacidade de manter qualidade de entrega sem subsídios eternos e reação do iFood em seus territórios mais vulneráveis — justamente o interior médio.

A estreia em Três Lagoas ainda não tem data marcada, mas o relógio corre até dezembro de 2026. Quem opera no setor — seja como empresário, investidor ou gestor de logística — faria bem em mapear a entrada cidade a cidade. O interior brasileiro nunca foi tão disputado.