Flávio Bolsonaro (PL) liderou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT), mas ninguém cruzou a linha dos 50% necessários para evitar a rodada final em 25 de outubro. O resultado expõe falhas estratégicas que vão muito além da polarização — e sinalizam riscos concretos para a economia nos próximos 21 dias.
Especialistas ouvidos pelo Terra identificam sete erros centrais, divididos entre as duas campanhas. A leitura comum: ambos deixaram votos na mesa por motivos evitáveis. Entender esses movimentos é essencial para quem precifica ativos brasileiros nas próximas semanas.
O diagnóstico do lado petista: comunicação atrasada e desconexão real
O primeiro erro, segundo Rogério Baptistini (Mackenzie), foi de leitura de cenário. A campanha apostou em indicadores macroeconômicos positivos — PIB crescendo, emprego em alta — sem endereçar a dor microeconômica do eleitor médio: juros altos, endividamento recorde e inflação de alimentos no supermercado. O discurso oficial não bateu com a experiência da fila do caixa.
O segundo erro é estrutural: o governo passou o mandato com “duas cabeças”, uma voltada ao mercado e outra ao social, sem costurar uma narrativa única que explicasse como as duas convivem. Resultado: conquistas reais não viraram capital eleitoral.
Terceiro: medidas de impacto anunciadas na reta final. O reajuste do Bolsa Família (de R$ 600 para R$ 691) saiu a 17 dias da votação; a MP das bets, a nove. O pagamento do novo valor só cai na conta em 19 de outubro — véspera do segundo turno. O eleitor não sentiu o efeito no bolso a tempo.
Quarto: campanha “morna” nas ruas e redes. Ausência de carreatas no interior, baixa penetração orgânica em algoritmos onde a oposição domina. Lula abriu mão de seu ativo histórico: a mobilização territorial.
O diagnóstico do lado bolsonarista: voto útil sem projeto
O quinto erro é o espelho inverso: Flávio apostou que a rejeição a Lula bastava. Funcionou para agregar eleitores de Zema, Caiado e Cury no voto útil do primeiro turno. Mas a campanha não apresentou um programa de governo identificável — nem em economia, saúde, educação ou emprego.
Sexto: a ausência de proposta criou teto de expansão. Baptistini aponta três limites: dependência de capital político alheio (o antilulismo), falta de projeto de país (discurso ultraliberal genérico) e dificuldade de dialogar com mulheres, urbanos de renda média e religiosos moderados.
Sétimo: a percepção de que a gestão atenderia prioritariamente segmentos de renda mais alta. O debate sobre a escala 6×1 virou símbolo dessa desconexão com o trabalhador de menor renda — justamente o eleitorado que decide eleição no Brasil.
O que os números mostram: a conta do comparecimento
- Abstenção: 21,08% (TSE) — cerca de 34 milhões de eleitores
- Brancos e nulos somados: aproximam o não-voto de 25% do eleitorado
- Perfil do ausente: +70 anos, baixa escolaridade, áreas remotas
- Prazo até 2º turno: 21 dias (25 de outubro)
Para Doacir Quadros (Uninter), a disputa agora é por quem transforma desafeição em comparecimento. Baptistini pondera: promessas não resolvem abstenção — ela é posicionamento político. O incumbente (Lula) carrega o peso de quem se absteve dele; o desafiante (Flávio) precisa evitar que sua base permaneça restrita ao bolsonarismo duro.
O que observar daqui para frente: três variáveis de mercado
Até 25 de outubro, três movimentos devem ditar a precificação de risco Brasil:
- Capacidade de Lula virar governo em campanha: anúncios concretos (não promessas) que cheguem ao bolso antes da votação — crédito consignado privado, desoneração pontual, sinalização fiscal crível.
- Disposição de Flávio em apresentar plano de governo: nomes para Fazenda e Planejamento, regras fiscais claras, agenda de concessões. O silêncio programático vira prêmio de risco.
- Mobilização dos derrotados do 1º turno: apoios formais de Zema, Caiado, Cury e seus eleitores. Cada declaração move pesquisas qualitativas em 1 a 2 pontos.
Adriane Buarque (ESPM) resume: a próxima fase exige “campanha com conteúdo, com projeto, mostrando o que o governo trouxe ou o que pensa para o futuro”. Quem entregar primeiro — e com credibilidade — leva a vantagem na reta final. O mercado já precificou polarização; agora precifica execução.
