Uma perícia judicial determinou que a Casas Bahia opera hoje com estoques 40% menores e 4,6 mil funcionários a menos em relação ao período anterior à reestruturação. O relatório, no entanto, confirma que 96% das lojas e a fábrica Bartira seguem ativas, sinalizando uma operação enxuta, mas preservada.
O documento levanta uma dúvida central para investidores e fornecedores: o encolhimento reflete eficiência cirúrgica ou perda de capacidade de venda? A resposta está nos detalhes da ocupação física e na dinâmica de capital de giro.
O raio-X da operação: o que continua de pé
O perito nomeado pelo Juízo visitou 735 das 744 lojas da rede. Destas, a vasta maioria mantinha atividade comercial regular. Nos centros de distribuição, 25 das 29 unidades estavam operacionais.
Dois ativos estratégicos mostraram normalidade total: a fábrica da marca própria Bartira e a plataforma de e-commerce. Isso indica que a verticalização da produção e o canal digital — pilares da tese de valor da companhia — não foram desmontados durante o processo de recuperação.
O encolhimento deliberado: números da reestruturação
O lado oposto da moeda revela a magnitude do ajuste. A redução de 40% no volume de estoques é o dado mais impactante para a gestão de caixa. Menos mercadoria parada significa menor necessidade de capital de giro, mas exige precisão cirúrgica na reposição para evitar rupturas nas gôndolas.
Paralelamente, a força de trabalho caiu em 4,6 mil postos. A combinação de menos gente e menos espaço ocupado (áreas ociosas foram identificadas em lojas e CDs) desenha uma estrutura de custos fixos significativamente mais leve.
- Lojas ativas: 735 de 744 (98,8%)
- Centros de distribuição ativos: 25 de 29 (86,2%)
- Redução de estoque: 40%
- Redução de quadro funcional: 4.600 pessoas
Eficiência ou risco de ruptura? O dilema do giro
Para o mercado, o estoque 40% menor é uma faca de dois gumes. De um lado, libera caixa imediato e reduz despesas de armazenagem e depreciação. Do outro, eleva o risco de ruptura — a temida “gôndola vazia” que afasta o consumidor e derruba a receita bruta.
A manutenção de 735 pontos de venda com estoques drasticamente reduzidos exige uma logística de “just-in-time” impecável. Qualquer falha no abastecimento dos 25 CDs ativos pode amplificar o impacto nas vendas de forma não linear.
O passivo imobiliário e trabalhista invisível
As “áreas ociosas” mapeadas pela perícia representam um passivo silencioso. Metragem quadrada alugada mas não produtiva ainda gera despesa de ocupação (aluguel, condomínio, IPTU, manutenção). A devolução ou sublocação desses espaços é uma alavanca de caixa pendente.
No front trabalhista, a saída de 4,6 mil colaboradores carrega custos de rescisão e potenciais passivos judiciais futuros. A velocidade de conversão dessa redução de headcount em economia líquida no EBITDA dependerá da gestão desses passivos transitórios.
Cenários para o próximo trimestre: o que observar
O relatório pericial fotografa um momento estático, mas a dinâmica do varejo é fluida. Três variáveis definirão se o “tamanho novo” da Casas Bahia é sustentável:
- Ciclo de conversão de caixa: A redução de estoque virou caixa no banco ou apenas pagou fornecedores atrasados?
- Produtividade por loja: O faturamento por metro quadrado subiu o suficiente para cobrir a estrutura enxuta?
- Margem da Bartira: A fábrica operando normalmente consegue absorver a demanda interna sem perder competitividade de custo frente a importados?
O fechamento do ciclo de capital de giro — comprar bem, estocar pouco, vender rápido e receber no prazo — é a prova de fogo. Se a varejista mantiver o giro de estoque acelerado sem rupturas, o encolhimento de 40% será validado como ganho de eficiência. Caso contrário, a estrutura enxuta pode se revelar apenas “pequena demais para competir”.
