Economia

O segredo dos bilionários que financiam os dois lados da disputa

Irmãos donos da Grendene em fábrica no Rio Grande do Sul
Donos da Grendene financiam campanhas opostas no Ceará para garantir acesso ao poder.

Os irmãos donos da Grendene colocaram R$ 1 milhão na campanha de Ciro Gomes (PSDB) e outro milhão na reeleição de Elmano de Freitas (PT) no Ceará. A aposta dupla expõe uma lógica fria: garantir acesso ao poder, seja quem for o vencedor. Mas a estratégia vai muito além do Nordeste.

Por que o Ceará importa tanto para gaúchos?

A resposta está no chão de fábrica. Embora a Grendene tenha nascido em Farroupilha (RS) fabricando suportes para garrafões de vinho, foi no Ceará que o império escalou. Hoje, 11 das 13 fábricas do grupo estão no estado — seis só em Sobral.

No primeiro semestre de 2026, a receita bruta bateu R$ 1,4 bilhão. São 16 mil empregos diretos dependentes de decisões estaduais: incentivos fiscais, infraestrutura logística, legislação trabalhista. Financiar os dois finalistas tecnicamente empatados, segundo Datafolha, não é ideologia. É gestão de risco industrial.

O mapa dos mega-doadores em 2026

Os Grendene não estão sozinhos no topo. Até 2 de outubro, o ranking de pessoas físicas que mais injetaram dinheiro próprio nas campanhas revela a geografia do poder econômico:

  • Rubens Ometto (Cosan): R$ 6,1 mi — foco no MDB nacional.
  • Carlos Suarez (Termogás): R$ 5,7 mi — pulverizado em MDB, PSD, PSDB, PP, União.
  • Alexandre Grendene: R$ 3,9 mi — destaque para Luciano Zucco (PL-RS), com R$ 2,5 mi.
  • Pedro Grendene: R$ 3,5 mi — apoia Elmano (PT-CE) e nomes no PL, PSB, PDT.
  • Luciano Franco Barreto (Construtora Celi): R$ 3,2 mi — foco em Sergipe.

Somados, os dez primeiros colocados ultrapassam R$ 33 milhões. Parece muito, mas o cientista político Bruno Wilhelm Speck contextualiza: em 2014, a JBS sozinha doou R$ 362 milhões. “Estamos em outro andar, mas o risco de influência não sumiu”, resume.

Duas lógicas, um mesmo bolso

Speck separa as motivações em dois blocos. A primeira é eleitoral: concentrar recursos para eleger uma bancada alinhada. A segunda é relacional: distribuir apostas para manter as portas abertas no palácio que vier a ser ocupado.

O caso de Erasmo Carlos Battistella (Be8) ilustra a segunda via. Ele doou R$ 500 mil para Lula (PT) e R$ 500 mil para Flávio Bolsonaro (PL) à presidência. Em nota, disse agir dentro da lei e com “governança e integridade”. Na prática, comprou seguro bilateral.

O dilema é matemático: ao apoiar os dois, o doador neutraliza sua capacidade de decidir a eleição, mas blinda seu acesso futuro. “Se você quer maximizar sucesso eleitoral, financia um lado. Se quer garantir diálogo, financia os dois”, explica Speck.

O que mudou — e o que não mudou — após a Lava Jato

A proibição do financiamento empresarial (2015) empurrou o dinheiro para o CPF dos donos. O teto individual caiu, mas a concentração de poder migrou. Antes, o candidato batia na porta da empresa. Hoje, bate na porta do diretório nacional do partido.

O Fundo Eleitoral e o Fundo Partidário viraram a torneira principal. Isso fortaleceu as cúpulas partidárias em detrimento dos mandatos individuais. Diretórios nacionais decidem quanto cada estado recebe, e as estaduais decidem quem leva a verba. A autonomia do candidato encolheu.

O efeito colateral na diversidade

Teresa Sacchet (UFRGS) aponta um ganho real: a representação feminina na Câmara saltou de 10% (2014) para 17,7% (2022). O dinheiro público tem cotas; o privado não tinha.

Os números mostram a dependência: candidatas negras captaram 95% de suas receitas via fundos públicos em 2022. Brancas, 91%. Homens, 86%. Quem tem capital próprio larga na frente — a regra de autofinanciamento (até 10% do teto) beneficia quem já é rico.

O que observar daqui para frente

O debate técnico agora gira em torno do teto nominal fixo por doador, substituindo o percentual da renda ou do teto de campanha. A tese: valores absolutos iguais reduzem a assimetria entre candidatos abastados e novatos.

Enquanto o Congresso não vota a reforma, a regra do jogo segue favorecendo quem sabe navegar nas duas margens do rio. No Ceará, os irmãos Grendene já garantiram o ingresso no camarote — independentemente de quem sente na cadeira de governador em 2027.