O Brasil financiou 683,9 mil veículos apenas em agosto, o melhor resultado para o mês em 15 anos, enquanto a inadimplência superou 6,6% — o maior nível desde 2012. Esse cenário contraditório está redesenhando as regras do crédito e o perfil de quem consegue comprar um carro zero-quilômetro hoje.
O volume de dinheiro novo injetado no setor impressiona: foram R$ 173 bilhões liberados até julho, superando os R$ 150 bilhões registrados em todo o ano passado no mesmo período. Mas, por trás dos números recordes, uma silenciosa restrição de crédito já está em vigor nas principais instituições financeiras.
Por que o dinheiro caro não freou as vendas
Com a Selic elevada e a renda da classe média pressionada, a lógica indicaria retração. O movimento oposto acontece por dois vetores: a migração massiva para veículos eletrificados com taxa zero e a entrada de programas governamentais de subsídio.
Motoristas de aplicativo lideram essa troca. A economia com combustível e manutenção de um elétrico ou híbrido, na prática, cobre a parcela do financiamento. Isso criou um nicho de “bons pagadores” que mascara o risco geral da carteira.
- Entrada robusta: Montadoras chinesas exigem alto valor inicial para oferecer juro zero.
- Custo operacional menor: Reduz a probabilidade de atraso mesmo com parcelas altas.
- Público profissional: Quem depende do carro para trabalhar prioriza o pagamento.
O endurecimento que ninguém anuncia
Grandes bancos como Santander e C6 Bank confirmam: a originação de crédito piorou. A resposta não é negar o empréstimo, mas exigir mais dinheiro na entrada e encurtar prazos.
No Santander, clientes com score alto ainda financiam 100% em 60 meses. Para perfis de risco médio, a entrada salta para 20% a 30%. No C6, a média histórica de entrada já beira 40% do valor do veículo. É uma autodefesa do sistema para evitar que a inadimplência, já em 6,63% para pessoas físicas, dispare sem controle.
O fantasma de 2012 e a lição aprendida
A memória do setor volta a 2012: IPI reduzido, Selic caindo e crédito farto levaram a inadimplência acima de 6%. A diferença crucial hoje é a rigidez na aprovação. “Não há espaço para um novo surto de calote porque a porta de entrada já foi estreitada”, resume Cassio Pagliarini, da Bright Consultoria.
Outro fator estrutural mudou: o preço de entrada. Em 2012, o carro mais barato (Gol) custava o equivalente a R$ 57,5 mil atuais. Hoje, o líder de vendas (Polo) parte de R$ 96,6 mil. O ticket médio subiu, filtrando naturalmente perfis de renda mais baixa que historicamente defaultam mais.
Move Brasil: fôlego novo ou risco oculto?
O programa federal já movimentou R$ 5,3 bilhões e emplacou 51 mil veículos para trabalhadores de apps, táxi e transporte escolar. Mas há um detalhe técnico crítico: essas operações não entram na estatística oficial de inadimplência do Banco Central (que considera apenas atrasos > 90 dias com recursos livres).
Especialistas alertam: a renda variável desses profissionais representa risco financeiro elevado. Como os contratos são recentes, o teste real de pagamento virá nos próximos 12 a 18 meses. Se houver deterioração, o impacto será sentido primeiro nas carteiras dos bancos operadores do programa.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o ritmo do mercado até o fim do ano: a trajetória da Selic, a manutenção dos subsídios para elétricos e o comportamento da inadimplência “oculta” do Move Brasil. Para o empresário ou investidor, o sinal claro é: o crédito existe, mas ficou seletivo e caro. Quem tem caixa para entrada alta e fluxo de caixa previsível continua comprando; quem dependia de financiamento longo e entrada zero saiu do jogo.
