O próximo ocupante do Planalto receberá uma conta que não fecha no mandato: o agronegócio carrega cinco gargalos estruturais que exigem décadas, não anos, para serem resolvidos. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) mapeou os pontos críticos e propôs um pacote de políticas públicas. Especialistas confirmam a urgência, mas divergem sobre o ritmo viável de execução.
O diagnóstico: cinco frentes, um mesmo obstáculo
A entidade elencou prioridades que vão do crédito à imagem internacional. O fio condutor é a necessidade de marcos regulatórios estáveis e previsíveis — algo que o ciclo eleitoral de quatro anos costuma atrapalhar. Abaixo, o que está em jogo em cada eixo.
Financiamento e seguro: o custo que trava o campo
O nó central é o preço do dinheiro. Juros elevados, endividamento acumulado e onda de recuperações judiciais tornaram os bancos mais seletivos. Resultado: apenas 3% da produção agropecuária conta com cobertura de seguro, segundo dados do Insper Agro Global.
Uma lei publicada no Diário Oficial (15.526/2026) tenta virar a chave. O novo marco regulatório do seguro rural torna obrigatória a subvenção ao prêmio, blindando o orçamento contra contingenciamentos. Também regulamenta o Fundo de Catástrofe, voltado a perdas climáticas. Para a CNA, a medida tira o seguro da fila de cortes automáticos.
Mas a lei sozinha não resolve. Credores precisam recompor carteiras; tomadores, organizar balanços. E instituições ainda evitam o crédito rural pelo custo operacional atrelado à Selic e à percepção de risco climático.
Dependência de insumos: 80% vem de fora e a rota é instável
O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome. Parte relevante dos fornecedores está em zonas de conflito ou rotas sensíveis, como o Estreito de Ormuz. O Plano Nacional de Fertilizantes existe, mas seus frutos são de longo prazo — e nem toda matéria-prima existe no subsolo nacional.
Enquanto a produção interna não escala, a saída imediata é diversificar fornecedores. Em maquinários, o gargalo não é a montagem final — o Brasil já exporta tratores e colheitadeiras —, mas os componentes eletrônicos (chips), cuja fabricação local carece de escala econômica.
Há ainda o “passivo regulatório”: a demora na aprovação de defensivos e biotecnologias. Testes de segurança ambiental e toxicológica são obrigatórios, e acelerá-los carrega riscos. Não há atalho seguro.
Infraestrutura: a produção corre mais que as estradas
Em quatro anos, a safra pode crescer quase 100 milhões de toneladas — o equivalente à colheita inteira da Argentina. A logística não acompanha. Dois gargalos pesam no bolso do produtor:
- Déficit de armazenamento (gera perdas físicas e pressiona preços na colheita)
- Estradas precárias (elevam o frete e reduzem margens)
Licenças ambientais travam obras já financiadas e estudadas. A integração modais — ferrovias, hidrovias, portos — anda devagar. No campo, 1,3 milhão de domicílios rurais (15%) seguem sem internet, segundo o IBGE 2024. Máquinas conectadas não transmitem dados sem sinal.
O setor público não tem caixa para tudo. Concessões, privatizações e PPPs são os instrumentos na mesa. O próximo presidente pode criar a segurança jurídica que atrai o capital privado.
Imagem e inserção internacional: o Brasil vende volume, mas pouco valor
O agro brasileiro sofre com reputação — dentro e fora do país. A Colômbia transformou o café em marca global desejada pela origem; o Brasil ainda exporta commoditizado. Uma política de comunicação articulada entre governo, embaixadores e entidades de classe poderia mudar esse jogo.
Na mesa de negociações, o desafio é outro: poucos acordos de longo prazo. A China, maior cliente, não tem tratado comercial estruturado com o Brasil. Em mundo de barreiras sanitárias e tarifas crescentes, previsibilidade atrai investimento. O caso dos antimicrobianos na pecuária (exigência da UE) mostra o custo de reagir tarde: o Brasil só se mexeu após a regra publicada, embora esperada há anos.
Outro risco: concentração de mercado. Vender muito para poucos compradores fragiliza a posição negocial. A defesa da legislação sanitária e ambiental brasileira — sólida, mas mal comunicada — precisa ser coordenada por produto, não por bloco genérico.
O que observar daqui para frente
O seguro rural obrigatório (Lei 15.526/2026) será o primeiro termômetro: se a subvenção fluir sem contingenciamento, a adesão pode saltar dos atuais 3%. No financiamento, acompanhe a taxa de inadimplência e o volume de recuperações judiciais — indicam se o ciclo de crédito está se normalizando.
Na infraestrutura, o avanço real virá de leilões de concessão e PPPs com contratos de longo prazo. Já na inserção internacional, o sinal concreto será a assinatura de acordos bilaterais com garantias de acesso a mercado — não apenas memorandos de entendimento.
O agro não para. Quem assumir o comando em 2027 herdará a safra em campo, os juros no balanço e o mundo cobrando rastreabilidade. A diferença entre gerir a crise e estruturar o crescimento estará na capacidade de transformar diagnósticos consensuais em execução contínua — independentemente do calendário eleitoral.
